domingo, dezembro 18, 2005

Rosiska fala sobre o encontro de Mendes

A dívida com a escola pública (Folha Dirigida - Educação - 11/11/03)
O ano era 1983, o último do Regime Militar no Brasil. Em abril do ano seguinte, o movimento das Diretas Já! abriria espaço para a volta da democracia. No interior do estado do Rio de Janeiro, mais precisamente em Mendes, cidade a 92 quilômetros da capital, professores se reuniam, pela primeira vez na história do país, para discutir as políticas educacionais a serem adotadas nos próximos anos.

O Encontro de Mendes, como ficou conhecido, foi organizado pela professora Rosiska Darcy de Oliveira, juntamente com o vice-governador da época, o educador Darcy Ribeiro. Após 20 anos, a professora se diz decepcionada. "Houve uma grande frustração, porque apesar da mobilização imensa, do enorme entusiasmo e da impressão que tinhámos de que estávamos decolando para uma nova era da educação, não houve continuidade", lamenta.

Além de professora, Rosiska possui um vasto currículo de realizações e conquistas. Atualmente, ela é presidente (e uma das fundadoras) do Instituto de Ação Cultural (Idac) e presidente do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher. Escritora, comemora o lançamento de "Reengenharia do Tempo", sua mais recente obra. Foi com este entusiasmo que a professora recebeu a equipe da FOLHA DIRIGIDA na sede do Idac, no Jardim Botânico, para entrevista.

Durante a conversa, Rosiska opinou sobre as suas três principais lutas: pela educação, pela cultura e pelos direitos das mulheres. Confira a entrevista completa:


Folha Dirigida - O Brasil reconhece o valor da educação?
Rosiska Darcy - Nunca reconheceu. Talvez só ultimamente é que se esteja dando conta do prejuízo que isso trouxe ao país. A educação seria a única solução possível para melhorar as condições de pobreza do país. Por isso, programa de combate à pobreza, fundamentalmente, é um programa de boa educação. O Brasil nunca deu a devida importância, tanto assim que a educação é vista como um gasto e não como um investimento.

Folha Dirigida - Qual é o grande problema da educação brasileira?
Rosiska Darcy - É muito difícil dizer qual é o grande problema. A educação brasileira tem uma infinidade deles. O mais gravíssimo, com certeza, é a morte da escola pública, que sempre foi um elemento de mobilidade social das classes mais pobres e uma formadora de mão-de-obra qualificada em todos os níveis da sociedade. Hoje, a escola pública educa mal, mesmo que tenha matriculado um grande número de crianças. Um segundo grande problema, que envolve inclusive as escolas supostamente bem aparelhadas, é que há uma inadequação ao nosso tempo. Vivemos uma mudança de era, que implica em mudanças de conhecimentos. Nesta era da informação, os conhecimentos têm uma combustão muito rápida. Aquilo que se aprende, muito rapidamente, já não serve para nada. E o sistema escolar está montado como se a pessoa pudesse ainda ter um período de formação antes da entrada no mundo do trabalho. Não é mais assim. A distribuição social do conhecimento deveria ser organizada de outra maneira para responder a esta necessidade.

Folha Dirigida - Os cursos técnicos, que mesclam formação e profissionalização, seriam as melhores alternativas para responder a esta necessidade?
Rosiska Darcy - Não, não é isso. Um estudante de Engenharia, por exemplo, aprende determinadas coisas na faculdade e, quando se forma, encontra conhecimentos novos que não existiam no início de seu curso. Portanto, há uma necessidade de reciclagem, em todas as carreiras, não apenas na Engenharia. Essa necessidade de formação permanente, que se impõe por conta da rapidez das mudanças tecnológicas, implica em uma organização na distribuição do conhecimento diferente daquela que vivíamos na minha geração. Naquela época, se estudava até os 22 anos na faculdade e depois, a pessoa passaria a atuar como profissional e viveria apenas daquilo que aprendeu na faculdade. Hoje não é mais assim. A qualquer época da vida, deveria ser possível construir pontes entre o mundo do trabalho e a educação, de maneira que as pessoas pudessem permanentemente se reciclar.

Folha Dirigida - Como seria possível esta constante reciclagem?
Rosiska Darcy - As empresas já estão fazendo isso, até mais do que o governo. Elas sabem melhor do que ninguém que, se não fizeram, não serão competitivas, pois não terão quadros qualificados. Talvez, caberia ao Ministério da Educação a responsabilidade de estudar inovações na distribuição do conhecimento. É preciso pensar o sistema educacional até a faculdade com um circuito de aprendizagem que deve ser alargado como forma de educação permanente. Isso é importantíssimo para as formações de ponta. Afinal, envolve a questão dos grandes problemas da educação, pois há uma base terrível, com analfabetismo, repetência e escola pública ruim, e na outra ponta, há uma inadequação na organização dos estudos à era em que estamos vivendo. São dois exemplos extremos, um com pessoas com baixa formação e outro com pessoas com alta formação.

Folha Dirigida - Em 1983, aconteceu o Encontro de Mendes, que reuniu professores de todo o estado do Rio de Janeiro e políticos da época. A senhora, juntamente com Darcy Ribeiro, foi uma das organizadoras do evento. Como foi esta experiência?
Rosiska Darcy - Tenho muito orgulho disso. O que aconteceu em Mendes foi o seguinte: o professor Darcy Ribeiro resolveu colocar em discussão um conjunto de teses sobre educação. Teses essas que redigi juntamente com ele e que foram publicadas em um jornal que eu editei, chamado "Escola Viva". As teses cobriam vários temas, relativos à situação da educação naquele momento e o Darcy queria fazer com que todo o corpo docente do estado discutisse essas teses. Era uma tentativa de fazer um grande processo de qualificação profissional dos professores. Em Mendes, houve a chegada do encontro. Eram 60 mil professores que, durante uma semana, foram se aproximando de Mendes por afunilamento. Ou seja, começou nas escolas, com todos os 60 mil discutindo, depois iam-se criando grupos menores e delegações, até que os delegados chegaram a Mendes. E lá houve um grande debate. Foi um momento muito importante do pensamento sobre a educação no estado do Rio de Janeiro.

Folha Dirigida - O Encontro de Mendes foi a primeira vez em que se discutiram políticas educacionais, até mesmo devido ao período histórico pelo qual o Brasil havia atravessado. O que mudou depois deste encontro?
Rosiska Darcy - Daí, nasceu a idéia dos Centros Integrados de Educação Pública (Cieps), um passo importante na educação. Os Cieps foram uma experiência que poderia ter sido algo fantástico, mas que foi, de certa maneira, abortado. Os governos que sucederam não deram aos Cieps a importância que eles mereciam. E do Encontro de Mendes, não nasceram apenas os Cieps. Nasceu também uma consciência crítica importante para uma parte do corpo docente. Estes seriam os efeitos positivos do encontro. Como efeito negativo, houve uma grande frustração, porque apesar da mobilização imensa, do enorme entusiasmo e da impressão que tínhamos de que estávamos decolando para uma nova era da educação, não houve continuidade. Para mim, pelo menos, houve uma grande frustração. Lamento imensamente que aquela experiência não tenha continuado.

Folha Dirigida - Que comparação a senhora faria da qualificação dos profissionais daquela época com a existente agora?
Rosiska Darcy - A qualificação dos professores vem se tornando cada vez mais rarefeita, até porque há uma dificuldade muito grande para que ela aconteça. A vida se tornou muito acelerada. Os professores têm menos tempo e são obrigados a trabalhar em vários colégios para ganhar a vida. Eles não estão organizados de maneira que seja possível aprender todo o conhecimento acumulado. Então, há um risco, e não estou querendo dizer que isto vai acontecer realmente, de uma progressiva desqualificação, se não houver um investimento neste sentido e se não for repensada a formação dos professores como uma questão estratégica da educação. Esta é uma questão na qual esbarra qualquer projeto, por melhor que ele seja. Não adianta você fazer um grande projeto educativo: se você não tiver bons professores, você não leva nada adiante.

Folha Dirigida - A senhora fundou, juntamente com Paulo Freire, o Instituto de Ação Cultural (Idac). Qual a importância de promover a cultura em um país como o Brasil?
Rosiska Darcy - Tenho uma visão muito particular sobre essa questão de cultura. Acho que a maneira de promover cultura é deixá-la acontecer e não impedir que ela aconteça. O Brasil é um país que tem uma vitalidade cultural extraordinária. É uma sociedade imensamente produtiva do ponto de vista cultural. Se a gente não atrapalhar, já faz muito. E se quiser ajudar, evidentemente, será dando voz a quem já está falando. Ou seja, deve-se impedir que essa criatividade se perca por falta de meios, por falta de espaço ou por um massacre de uma concorrência desleal.

Folha Dirigida - A senhora acredita que as influências estrangeiras na cultura são prejudiciais?
Rosiska Darcy - Não. É muito perigoso dizer que influências estrangeiras na cultura são prejudiciais. Temos uma cultura fortíssima, perfeitamente capaz de se defender. E mais ainda: temos muito a dizer fora daqui. Então, seria estranho querer defender a cultura brasileira de toda e qualquer influência externa, porque assim, também não se poderia exercer nenhuma influência. Defendo há muitos anos que a melhor arma de política externa brasileira é a sua cultura. O Brasil não possui nenhum poderio militar ou econômico, mas é, definitivamente, uma potência cultural. Fazemos parte de um país onde se consegue trabalhar problemas que, fora daqui, não são resolvidos. Vou dar um exemplo: a tolerância religiosa. Vivemos em um mundo onde há intolerância religiosa em diversos lugares. O Brasil, entretanto, é um país tolerante. Há uma convivência religiosa que, senão perfeita, passa por crises muito menos agudas do que as que a gente vê fora daqui. Então, essas características culturais do Brasil são exemplares para o resto do mundo. Gosto quando o Brasil fala para fora e por isso, não posso impedir que ninguém fale para cá.

Folha Dirigida - A senhora também é conhecida pela luta travada em favor dos direitos das mulheres. A situação da mulher brasileira mudou nas últimas décadas?
Rosiska Darcy - Foi uma verdadeira revolução. E uso a palavra sabendo o peso que ela tem. Houve uma migração impressionante do espaço privado para o espaço público. Hoje, dados comprovam que metade da população economicamente ativa brasileira é feminina e que 51% das matrículas em todos os níveis escolares, incluindo a universidade, são femininas. As mulheres mudaram completamente de lugar na sociedade brasileira. Evidentemente, persistem anacronismos, que são ainda mais inexplicáveis do que já eram antes. Um exemplo é a violência contra as mulheres, que continua a existir. Porém, acredito que ela vai desaparecer quando a sociedade execrá-la como já execra, por exemplo, a violência de um filho contra a mãe. Portanto, se nos mantivermos, e me refiro a mulheres e a homens democratas e civilizados, em uma posição firme de condenação a isto, vamos mudar a situação.

Folha Dirigida - Além das conquistas indiscutíveis, houve também equívocos no movimento pelos direitos das mulheres?
Rosiska Darcy - No meu novo livro, "Reengenharia do Tempo", discuto esse ponto. A verdade é que as mulheres da minha geração aceitaram condições de trabalho muito ruins quando negociaram sua entrada maciça no mercado. Esse talvez tenha sido um equívoco, mas não totalmente, porque era a consciência possível da época. Aceitamos nossa entrada no mercado de trabalho como se isso fosse um favor que nos era feito. E por ser um favor, aceitamos as piores condições. As mulheres passaram a ocultar a vida privada, como se ela não existisse, para não incomodar o mundo do trabalho. Então, chegava-se em uma empresa e dizia-se: "Me deixa entrar que você não vai perceber que sou mulher. Você não vai perceber que tenho família e filhos". E em casa, dizia-se para os maridos: "Me deixa sair que você nem vai perceber. Isso aqui vai ficar exatamente como era antes". Enfim, as mulheres tentaram fazer com que duas vidas coubessem dentro de 24 horas, o que é impossível. Hoje, muitas mulheres continuam fazendo isso, mas elas, e os homens também, sentem que há um problema. A família atual é uma realidade completamente diferente de alguns anos atrás. Não existe mais a figura do homem provedor, que sustenta a família. Homens e mulheres trabalham e dividem responsabilidades. Por isso, digo que é preciso fazer uma reengenharia do tempo.

Folha Dirigida - Como seria esta reengenharia do tempo?
Rosiska Darcy - O mundo do trabalho deve mudar suas temporalidades para que todos, homens e mulheres, trabalhem em jornadas menores ou flexíveis. Há um mundo de coisas a serem discutidas, mas o importante é não fazer de conta que a vida privada não existe ou que há uma mulher cuidando disso, porque não existe mais esta situação. Talvez, voltando à questão dos equívocos, a luta pelos direitos das mulheres tenha prejudicado bastante as pessoas que dependiam das mulheres, como crianças e idosos, que não têm mais a acolhida que tinham antes. E, quando normalmente digo isso, sempre o pensamento conservador se levanta para dizer: "Mas então as mulheres não deveriam ter saído de casa". No que respondo: "Não deviam coisa nenhuma: tinham que ter saído. Primeiro, porque queriam, e só isso já basta como argumento". As mulheres queriam ter independência e liberdade, o que é justíssimo. Agora, se na minha geração isso foi uma escolha, hoje, é uma necessidade. Com o atual mercado, em que há trabalho mas não há emprego e quase ninguém tem emprego fixo com carteira assinada, um casal que constitui família tem que ter pelo menos dois salários. Então, mais do que nunca, nesse momento, as mulheres têm que trabalhar, queiram ou não queiram.

Folha Dirigida - Em que medida a educação atuou como agente transformador nesse processo?
Rosiska Darcy - Foi um fator muito importante. Nesse sentido, a escola pública universal foi fundamental, porque acolhia meninos e meninas, apesar das discriminações internas. O fato de as mulheres terem se qualificado profissionalmente, em alguns casos até com alto nível de qualificação, também abriu-lhes melhores condições no mercado de trabalho. Atualmente, existem mais doutorados sendo feitos por mulheres do que por homens. Portanto, a figura da mulher dependente economicamente do marido, que aceitava qualquer condição de vida conjugal porque não tinha como sair dela, é algo que ficou para trás. Hoje, isso é bastante minoritário, o que provém liberdade para as mulheres. E para os homens também, pois a situação de provedor único é complicada e injusta.

Folha Dirigida - Ser professor, por muitos anos, foi visto como uma profissão majoritariamente feminina. Esta situação continua?
Rosiska Darcy - Continua e é algo estatisticamente verdadeiro. As mulheres ainda são majoritárias no ensino, embora a tendência da sociedade brasileira deve ser de cada vez mais os homens também ocuparem estas funções. A divisão de papéis está por um fio, é uma questão de duas gerações. Hoje, você entra em um hospital e descobre que metade dos médicos são médicas. Você entra em um fórum, metade dos advogados são advogadas. E dentro das escolas, os homens passam a se interessar mais pelo ensino também. Da mesma maneira que as mulheres se apropriaram dos espaços do universo masculino, os homens terão cada vez mais direitos sobre o universo feminino também. E não são só as profissões que eles vão reivindicar. Eles querem o direito de criar os filhos, de ter tempo dentro de casa e de ficar com suas famílias. Outro dia, me perguntaram: "Mas você não acha que o feminismo acabou?" e eu disse: "O feminismo está apenas começando". É nesta geração agora que começa o feminismo. A minha foi uma geração que fez confusão, protestou e conseguiu mudar tudo. Mas quem colhe as conseqüências sociais boas é a geração de agora. E o melhor resultado da luta das mulheres foi ter quebrado preconceitos de todos os tipos. Foi aberta uma grande margem de liberdade para todo mundo, para homens e mulheres. Hoje, pode-se escolher entre casar ou não, ter filhos ou não, ter filhos dentro ou fora do casamento ou viver com uma pessoa do mesmo sexo. Ninguém mais se assusta com isso, não é o escândalo que foi na minha geração. É um mundo de liberdades que, na minha geração, era totalmente impensável.

Folha Dirigida - Alguns educadores criticam o sistema educacional brasileiro porque, segundo eles, é um modelo que reproduz preconceitos e estereótipos. A senhora concorda com isso?
Rosiska Darcy - Se os parâmetros do Ministério da Educação forem analisados, vamos verificar que houve um passo muito grande para eliminar isso. É evidente que um papel no ministério não significa que vão ser modificadas as atitudes dos professores. Mas esses processos estão rápidos. É claro que a gente vem de muito longe, embora, em 30 anos, mudou-se o que havia sido a história humana até ali, quebrou-se um paradigma milenar. Hoje, os próprios jovens que optam por serem professores já não refletem tantos preconceitos e estereótipos, porque eles mesmos não os têm. Isso se reflete nas crianças.

Folha Dirigida - A educação brasileira está carente de pensadores como Paulo Freire e Darcy Ribeiro, com quem a senhora trabalhou?
Rosiska Darcy - Imensamente. Tanto Paulo como Darcy foram homens de horizontes amplos e que conheciam o mundo. Tive o privilégio de trabalhar com Paulo Freire por 10 anos fora do país, na África, na Europa e nos Estados Unidos. Sou testemunha do seu imenso prestígio no mundo inteiro até hoje, mesmo falecido. Ele realmente fez uma revolução no pensamento educativo. Com Darcy Ribeiro, aconteceu o mesmo. Ele era não só um pensador, como também um realizador. Ambos tinham a grande qualidade de não serem tecnocratas da educação. Eles eram filósofos da educação e tinham o sentido prático de fazer as coisas acontecerem. Paulo e Darcy tinham, sobretudo, uma visão larga do que é a educação para uma sociedade, não a encarando apenas como uma formadora de mão-de-obra. Eles eram educadores, muito mais que instrutores. Hoje, a educação entrou em um trilho tecnocrático. Há uma grande preocupação de formar mão-de-obra, que não deixa de ser justa, mas também é muito importante formar os espíritos. Para isso, precisa-se ter um projeto de futuro para a juventude. E tanto Paulo Freire quanto Darcy Ribeiro tinham um projeto para o Brasil. Não sei se as pessoas que tratam hoje da educação tenham um projeto para o Brasil. Acredito que o ministro Cristovam Buarque tenha, só não sei se ele vai conseguir realizá-lo. O ex-ministro Paulo Renato fez muito no campo da educação, trabalhou bastante e conseguiu resultados importantes. O problema, como já disse, é que a gente vem de longe. Então, o caminho para melhorar a educação é difícil.

domingo, dezembro 11, 2005

A empresa Brasil

            No plano econômico, o Brasil é produto da implantação e da interação de quatro ordens de ação empresarial, com distintas funções, variadas formas de recrutamento da mão-de-obra e diferentes graus de rentabilidade. A principal delas, por sua alta eficácia operativa, foi a empresa escravista, dedicada seja à produção de açúcar, seja à mineração de ouro, ambas baseadas na força de trabalho importada da África. A segunda, também de grande êxito, foi a empresa comunitária jesuítica, fundada na mão-de-obra servil dos índios. Embora sucumbisse na competição com a primeira, e nos conflitos com o sistema colonial, também alcançou notável importância e prosperidade. A terceira de rentabilidade muito menor, inexpressiva como fonte de enriquecimento, mas de alcance social substancialmente maior, foi a multiplicidade de microempresas de produção de gêneros de subsistência e de criação de gado, baseada em diferentes formas de aliciamento de mão-de-obra, que iam de formas espúrias de parceria até a escravização do indígena, crua ou disfarçada. ( O povo brasileiro - pág 176)

terça-feira, novembro 15, 2005

Viva o Brasil

"Poderão prender nossos corpos ou seqüestrar nossos bens, mas jamais prenderão nossos sonhos ou seqüestrarão nossos ideais" (Leonel de Moura Brizola)

quarta-feira, novembro 02, 2005

Poesia

Darcy Ribeiro é

Aquela

Minha amada é de carne, de pele e pêlo.
Ora é negra, ora é loura, ora é vermelha.
Minha amada é três. É trinta e três.
Minha amada é lisa, é crespa, é salgada, é doce.

Ela é flor, é fruto, é folha, é tronco.
Também é pão, é sal e manga-rosa.
Minha amada é cidade de ruas e pontes.
É jardim de arrancar flores pelo talo.

Ela é boazuda e é bela como uma fera.
Minha amada é lúbrica, é casta, é catinguenta.
Minha amada tem bocas e bocas de sorver,
de sugar, de espremer, de comer.

Minha amada é funda, latifúndia.
Minha amada é ela, aquela que não vem.
Ainda não veio, nunca veio, ainda não.
Mas virá, ora se virá. A diaba me virá.

segunda-feira, outubro 24, 2005

Homenagem a Darcy no Rio de Janeiro

No próximo dia 26 de outubro, quarta-feira, Darcy Ribeiro estaria completando 83 anos de vida e para lembrar a data a Fundação que leva o seu nome, presidida por Tatiana Memória, e o PDT, este através do Movimento dos Aposentados, Pensionistas e Idosos (Mapi) estarão promovendo atividades celebrativas. A Fundação Darcy Ribeiro, como determina o seu estatuto, promove reunião de confraternização em sua sede de Santa Tereza, na data do aniversário do seu fundador.

E o Mapi, através de sua vice-presidente, Zezé, ex-assessora de Darcy Ribeiro, lembrará a data com uma série de eventos que começa às 16 horas, como acontece tradicionalmente toda quarta-feira, com palestra do presidente do Clube Militar, General Gonzaga Lessa, sobre ‘Amazônia e Soberania Nacional’, seguida de debate. A palestra será no térreo da sede nacional da Fundação Alberto Pasqualini, na rua do Teatro 39, na Praça Tiradentes.

As celebrações prosseguem às 19 horas, já na sede da Fundação Darcy Ribeiro, em Santa Teresa, com a realização de coquetel seguido da apresentação de grupo vocal e, ainda, o lançamento do quarto volume da série “Fazimentos” da Fundação, este dedicado ao Darcy Ribeiro Antropólogo. Também será divulgada mais uma edição do tablóide mensal “Confronto”, também publicado pela Fundação Darcy Ribeiro.

Na semana passada, dentro do Festival de Cinema do Rio de Janeiro, Edson de Souza, ex-auxiliar de Darcy Ribeiro, lançou o documentário “Darcy Pensador do Brasil”, que foi um dos mais aplaudidos da mostra. O filme de Edson contém entrevista inédita do criador do Programa Especial de Educação do Governo Brizola – que brevemente será exibido no auditório da Fundação Leonel Brizola – Alberto Pasqualini, na rua do Teatro 39.

sábado, outubro 01, 2005

Lembranças

Darcy Brasileiro Ribeiro
"Creio no sonho. Creio no trabalho. Sonhei com paixão e ousadia as utopias maiores que podia sonhar e não me arrependo. Utopias impensáveis para os incrédulos. Utopias impossíveis para os pobres de coração"
Darcy Ribeiro

Lia Faria - Cada encontro mergulhado num contexto social, histórico e relacional é na verdade único, face às singularidades dos seres humanos, pensantes e desejantes. Portanto cada um deles se revela na verdade como reencontro, fortalecendo nossa humanidade.

Meu encontro com o professor Darcy Ribeiro não se aprisiona nas óticas meramente ideológicas ou racionais, pois na verdade foi de uma natureza que escapa às interpretações mais ligeiras ou mesmo aquelas que se pretendem científicas ou teóricas. Vivíamos um tempo e uma ordem que conjugava várias faces: o momento histórico especial do país e de minha geração silenciada; o retorno de Darcy à causa da educação brasileira; a esperança de construção/desconstrução, entre os traços arquitetônicos geniais de Niemeyer, do que havia sobrevivido dos nossos sonhos durante a ditadura; a utopia de invenção de uma nova escola pública...

Confluente de tantos avatares foi um encontro mágico. Ocorreu no Encontro de Mendes (RJ) em 1983, culminância do processo em que o professorado do antigo primeiro grau havia sido convidado, pelo movimento Escola Viva – Viva a Escola, a discutir sua prática pedagógica, pelo governo democrático que se instalava no Rio de Janeiro (após a vitória do PDT, com Leonel de Moura Brizola).

Assim, participo em Mendes, como representante do magistério da região serrana do estado, contribuindo para a aprovação e definição das metas do 1º Programa Especial de Educação (PEE).

Em relação aos Centros Integrados de Educação Pública (CIEPs) aprovamos a 11ª meta que se referia então à construção e implementação das escolas de horário integral, inspiradas na idéia da Escola Parque (BA), de Anísio Teixeira. E lá estava como sempre vibrando, Darcy Ribeiro.

Naquela oportunidade eu, como muitos outros professores, o conhecemos pessoalmente, assinalando um verdadeiro reencontro com a própria história brasileira. Para nós, a maioria ainda muito jovens, desprovidos dos nossos direitos políticos e civis, sem nunca ter votado para presidente, estávamos perante um grande mito, afinal tinha sido o último Ministro da Educação antes do golpe militar em 1964.

Logo, a partir daquele encontro poético (em sua origem grega: criar, inventar, gerar) a presença do professor Darcy Ribeiro foi marcante em incontáveis momentos de minha trajetória profissional e política: nos CIEPs, no 1º e 2º PEE, no livro A Utopia Possível, como membro da Internacional Socialista de Professores (UIPS), e, participando das bancas de minha dissertação de mestrado e tese de doutorado.

Darcy Ribeiro se tornou nos anos 80-90, para aqueles que o admiravam e também certamente para aqueles que o odiavam, presença geradora incansável, já que como ele mesmo dizia era um homem do fazimento.

Sonhos, invenções, utopias, em tudo a paixão pela vida...

Uma pessoa como ele se multiplica infinitamente em idéias e sonhos: o que o ser humano quer no fundo é amar; só há duas opções nessa vida, se resignar ou se indignar. Eu não vou me resignar nunca. A luta de Darcy pelo Brasil foi a sua mais eficaz estratégia de vencer a morte e continuar vivo.

Desta forma, Darcy Ribeiro não foi um homem de uma única causa, lutou pelos índios, pela educação, pela universidade pública (UNB e UENF), pelos CIEPs, como ministro, vice-governador, secretário de estado, e por último senador, foi de todos os lugares e de todos os recantos deste país.

Ainda como escritor, antropólogo, político e poeta nos deixou dois recados diretos,

Eu quero ficar vivo na carcunda de vocês com as minhas idéias. Sejam mais brasileiros...

Darcy Brasileiro Ribeiro somos todos nós, já é hora de retomar essa caminhada utópica, nos inspirando em algumas de suas obras. Façamos assim, uma homenagem no próximo dia 26 de outubro, data do seu aniversário.

Parabéns Darcy Ribeiro, acreditamos como você, que no dia em que o Brasil se livrar de sua herança de brutalidade, aí vamos criar a civilização mais bonita da terra.

sábado, setembro 17, 2005

Ultimo discurso no Senado Federal

Último discurso de Darcy Ribeiro no Senado
Último discurso do Senador Darcy Ribeiro no plenário do Senado, dia 5 de dezembro, na sessão especial requerida pelo deputado Matheus Schmidt, líder do PDT na Câmara, em homenagem aos 20 anos da morte do Presidente João Goulart.
O SR. DARCY RIBEIRO (PDT-RJ) - "O Hino Nacional me dá ânsia de choro. Não sentia isso antes. Por quê? Os anos de exílio sem ouvi-lo? Não sei. Doença? O certo é que me comove mais do que devia. Dá vontade de pegar uma espada e sair pronto para brigar, mas me ponho a chorar". (Palmas.)
"Exmo. Sr. Presidente do Senado da República, Senador José Sarney; meu querido amigo Leonel Brizola (Palmas), que eu quisera ver como Presidente da República — tenho certeza de que ele, mais do que ninguém que conheça, seria capaz de passar o Brasil a limpo, a favor da felicidade do povo e da dignidade da Nação; meu companheiro Almino Affonso (Palmas), queridos companheiros, queridas companheiras: vamos falar do Jango, do Presidente João Goulart, com quem tive um longo e intenso convívio, um convívio muito grato. O Jango era bom de conviver.
Lembro a V.Exªs. o que me vem agora à memória. Há 20 anos, eu corri muito para chegar a São Borja — e cheguei — para ver o Jango morto. Ele tinha sido proibido de entrar na sua pátria querida. Era o esquife dele que vinha. Tentei ficar perto, mas havia muitas pessoas do Brasil inteiro, sobretudo do Rio Grande, querendo colocar a mão no caixão ou tocar naquele homem extraordinário que se ia. Tive de me afastar para deixar que essas pessoas saudassem Jango e dele se despedissem. Sentei-me, então, num túmulo de mármore branco, de estilo comum, que parecia o sepulcro de uma família italiana. Fiquei sentado sobre o túmulo e assustei-me quando vi que era o de Getúlio. O retrato e o nome dele estavam lá. Fiquei muito emocionado: esse é o túmulo de Getúlio?
Mas, emocionou-me mais o fato de estarem aqueles dois homens plantados ali a 50 metros um do outro. Homens dali, de São Borja. Homens da tradição gaúcha mais profunda, homens da região missioneira tão sofrida, em que 300 mil índios foram assassinados ou vendidos para o Nordeste como escravos, o que criou naquela população missioneira algumas características que se difundiram no gaúcho.
Características que tinha Jango e Getúlio: a capacidade de convívio, ainda que assimétrico, com as classes subordinadas; de tomar o chimarrão juntos, de viver conversando, de amanhecer e passar a manhã juntos, conversando. Vejo em Getúlio e, sobretudo, em Jango uma capacidade extraordinária de falar com operário, com o lavrador. Creio que essa herança vem de lá. Mineiros e paulistas, que eu conheço tão bem, não têm essa característica, essa capacidade de intimidade assimétrica.
Mas intimidade com povo, capacidade de estar ao lado dele, não querendo se confundir com o povo, mas como um companheiro maior, o irmão mais velho que ali estava. Creio que essa é uma das heranças gaúchas bonitas, herança que era característica desses dois homens.
Jango se fez sucessor de Getúlio por méritos próprios. Era um jovem estancieiro muito rico; engordava 20 mil cabeças de gado por ano; podia continuar na sua vida venturosa e bem-sucedida, mas o convívio com Getúlio o foi chamando para outras tarefas, uma tarefa que era o Brasil, que era o trabalhismo, que era os trabalhadores. O convívio quase diário com seu vizinho, que era o velho Getúlio, o acompanhamento de Getúlio na campanha eleitoral, levou Getúlio, eleito Presidente, a fazê-lo seu Ministro do Trabalho. Ou seja, Getúlio dava a Jango a sua bandeira maior, o trabalhismo, que ele agarrou e levantou com dignidade, com honestidade a vida inteira.
A reação foi muito grande contra Jango. Ele combinou com Getúlio dobrar o salário mínimo, que desde o Governo Dutra não tinha se alterado. Isso provocou raiva muito grande, que não devia ter provocado. Alguns coronéis se irritavam, como se ofendesse a eles o fato de um operário ganhar mais. Jango nessa época ganhou uma grande bandeira de luta, mas ganhou também uma odiosidade feroz, terrível, das velhas classes dominantes.
É um homem que, como Getúlio, tem sua carreira política marcada por essas duas dimensões: o amor do povo e o ódio das classes dirigentes. Continuou convivendo com Getúlio, mas foi retirado do Ministério. É curioso verificar que nesse momento nascem dois homens: Golbery, autor do manifesto contra Jango com relação ao salário mínimo, e Jango, na posição oposta. Homens que teriam um papel muito profundo na história brasileira posterior. Jango herdava de Getúlio; tinha aprendido com Getúlio e tinha um extraordinário apreço pelas grandes tarefas do Getúlio. A tarefa de disciplinar as Forças Armadas, colocá-las nos quartéis, fazê-las obedecer ao poder civil e acabar com a anarquia do período tenentista.
Outra tarefa, polêmica, mas de importância inexcedível, que tem de ser compreendida para se compreender o Brasil, foi dar ordem, ajudar a estruturar o movimento operário, o movimento trabalhista brasileiro. Foi uma batalha, porque a liderança do movimento trabalhista estava sendo disputado por comunistas e por anarquistas, muito generosos de coração, mas que não tinham o que dar, e por Getúlio, que dá ao operariado um projeto próprio para lutar por suas próprias causas. Pressionado pelo próprio movimento operário, ele é levado a dar grandes saltos, saltos extraordinários na história brasileira.
Um dos saltos, que atualmente está sendo contestado criminosamente, pois é a maior invenção social brasileira, é o Imposto Sindical, que agora se chama contribuição sindical. Vários partidos desta Casa não se opõem a que os patrões recebam contribuição sindical para manter o SESI, o SENAC e as políticas deles, mas se opõem a que o povo operário tenha a sua contribuição sindical (Palmas). A contribuição sindical é a maior invenção social brasileira. Ela está na base de um sindicalismo frondoso que floresceu aqui, um dos maiores do mundo, porque cada sindicato que se organizava encontrava um modo de ter uma ajuda, uma verba tirada de todos os operários, correspondente a um dia de salário, dividido em doze prestações. Nem o próprio operário sentia, porque era descontado pelo patrão na folha de salário e entregue ao Governo — uma parte ficava com o Ministério da Educação.
Essa invenção não tem similar, mas alguns doidos alucinados que querem acabar com ela, querem a contribuição voluntária. Pode ser que os sindicatos dos metalúrgicos — o que eu duvido — consigam se organizar com a contribuição voluntária, mas 99% dos sindicatos não se organizarão, desaparecerão. Ou seja, um dos maiores movimentos sindicais do mundo, que envolve milhões de trabalhadores, que são defendidos sejam ou não membros do sindicato, isso tudo pode ruir pelo sectarismo, tipo de pendor udenista antioperário, antitrabalhador.
Outro feito fundamental de Getúlio, de que Jango e nós somos herdeiros, é a unicidade sindical. A unicidade sindical dá possibilidade de a classe operária ter atuação política, de estar presente no quadro nacional. O que pretendem hoje alguns partidos, inclusive alguns partidos chamados de esquerda, como o PT, que acaba de fazer essa proposição, é extinguir a unicidade sindical para adotar o sistema norte-americano, de um sindicato para cada empresa, o que acaba com o sindicalismo, o que acaba com o movimento operário. É uma coisa criminosa, que se deve à inspiração estrangeira, o pluralismo sindical dos financiadores do movimento sindical no mundo, os alemães, os franceses, os norte-americanos. E adotar isso no País é como se jogar fora o nosso passado e adotar o passado norte-americano, o passado inglês. Outra grande conquista foi a estabilidade no emprego, que nesses dias acaba de ser ameaçada — a Câmara liberou o patrão de obrigações para com os seus trabalhadores.
Aquilo que nós conseguimos está dentro da linha do pensamento japonês, por um paralelismo, por uma coincidência. A nossa concepção e a concepção de Getúlio é que uma empresa se faça com o capital, que tem de ser respeitado e lucrativo, e com os trabalhadores que a constroem. Eles têm parte daquela empresa; quando o trabalhador é despedido, ele não pode ser simplesmente descartado; ele tem de ser remunerado por isso. Permitir o absurdo de que o patrão assine a carteira sem obrigações é um ato criminoso.
Falam de Jango, mas Jango nasce herdeiro dessa posição e de outras posições de Getúlio e tenta levá-las adiante. Leva adiante, sobretudo, aquilo que constitui o documento mais importante, que é a Carta-Testamento de Getúlio, que deu a sua vida no momento em que a direita ganhar o poder; mas Getúlio o evitou, estourando seu coração com uma bala, aos 72 anos. Se não o fizesse — era a única saída —, ele seria enxotado do Catete, para dar o poder aos golpistas, aos udenistas, aos lacerdistas e a outros.
O suicídio de Getúlio Vargas foi um ato de extrema sabedoria. É o que vai permitir que JK — esse belo Presidente que nós tivemos, otimista, trabalhador, ousado — chegasse ao poder. Ele foi ao poder devido àquele tiro que Getúlio deu no coração. Há mil coisas mais a lembrar aqui. O Jango, com a Carta-Testamento, herda sobretudo a percepção de que a causa principal do atraso brasileiro era cruzeiro dar rendimento em dólares. Quando uma empresa põe aqui 10 mil dólares e cresce, foi porque teve êxito econômico? É porque apelou para o sistema bancário brasileiro. Todo o capital que ela passou a ter passa também a gerar dólares. Isso cria um desequilíbrio na economia nacional, coloca em posições antagônicas o capital nacional e o capital estrangeiro, obriga os empresários nacionais a ser coniventes com o capital estrangeiro. Isso é algo que se fixou em Jango.
Outra coisa que também se fixou em Jango — eu passei muitos dias conversando com ele sobre isso — era a noção de que a fórmula da revolução brasileira, de que o caminho brasileiro da revolução social era levar adiante a Revolução de 30. Àquelas conquistas acrescentar outras, sobretudo a reforma agrária. Era a convicção de que, fazendo a reforma agrária, o País seria reordenado, passaria a pertencer às multidões de brasileiros. O que eu classifico hoje como o mais importante momento social da história brasileira é o movimento dos sem-terra, que agora enfrenta o poder, exigindo um pedacinho de terra para plantar mandioca, milho, para criar galinha e cabra. Isso seria feito como? Tomando as terras de metade do Brasil que estão mal possuídas e não usadas, o que é um supremo despautério.
O Presidente da República acaba de dar um passo positivo impondo o que deveria ter ocorrido há 20 anos: um imposto para propriedades com mais de 80 hectares e improdutivas. Mas é preciso mais, porque esse decreto do Presidente, para ser colocado em execução e ser aceito pela Justiça levará anos e anos. E aqui vem uma questão séria: o movimento dos sem-terra vem por um lado e, por outro, o sistema econômico, destruindo os empregos. Vivemos uma quadra tremenda de desemprego, em que o próprio Governo privatiza empresas, estimulando a demissão ou colocando para fora 30%, pelo menos, dos seus trabalhadores.
Se amanhã privatizarem a Vale — os funcionários precisam saber disso —, 30% dos seus funcionários irão embora no outro dia. Essa situação de hostilidade com a força de trabalho, essas medidas coercitivas só podem apontar para uma situação dramática. Um povo não vai à revolução, à luta e à liberdade porque é mais miserável e pode morrer de fome. E é o que está ocorrendo. Por que a população brasileira não cresceu como deveria? Tinha de crescer para 160 milhões de brasileiros no último censo, mas faltaram 15 milhões. Esses 15 milhões não vieram por quê? Por fome, desemprego. Nunca tivemos uma fase de tanta violência, de tanta menina de 9, 10 anos prostituída. Essas meninas não se prostituem por volição, por vocação, por um pendor à prostituição. É casa sem comida, é casa abandonada e destruída.
Neste momento a única oferta que há de emprego para milhões de brasileiros é a do movimento dos sem-terra. Precisamos começar a distribuir a terra em grandes quantidades. Parcelas de 20, 30 hectares para quem queira nelas viver e trabalhar. Qual a alternativa que o Governo oferece para empregar essa multidão de milhões de desempregados e lançados à marginalidade e à violência? A única oferta que se faz, hoje, é a do movimento dos sem-terra.
Já falei muito. Poderia falar horas, tanto estou ligado à história de Jango. Deixem-me, apenas, recordar o que sucedeu em l964. A idéia que eu e Jango tínhamos era de que seria perfeitamente possível enfrentar o latifúndio e a direita latifundiária. O projeto de lei para isso eu tinha entregue ao Congresso Nacional, acompanhado de mensagem presidencial, propondo as medidas da reforma agrária, o que era factível de ser aprovado. Mas o que não era factível, o que nos tombou, foi a aliança da direita com os norte-americanos obcecados com a Guerra Fria.
Havia dois inimigos para os norte-americanos na Guerra Fria: a Rússia, claro; mas os inimigos locais eram Cuba, que ainda hoje os leva ao desespero, e o Brasil, pois temiam que a fome no Nordeste, a fome no Brasil, levasse o País a tomar um caminho desses. Jango não estava empurrando o País para esse caminho, para dar soluções, para equacionar o problema das terras.
O Brasil seria outro hoje se o projeto de reforma agrária que apresentamos ao Congresso a 15 de março tivesse sido aprovado. O golpe, então, se articulou como um golpe estrangeiro, financiado pelos norte-americanos e por outras potências, subornando generais, subornando políticos, todos sabendo dos escândalos, nesta Casa, do IBAD, da quantidade de dinheiro que foi posta na mão de Deputados e Senadores que aceitavam ser coniventes com a política deles, que era manter o Brasil tal qual é, porque era lucrativo para eles, era bom para eles, indiferentes à sorte do povo
Jango realizou grandes feitos. Vi crescerem projetos ao seu lado. Vi-o empurrar os Parlamentares que estavam lutando pelo Estatuto do Trabalhador Rural; vi-o levar adiante e criar a ELETROBRAS, que agora querem destruir. Na ELETROBRAS, conseguimos um mecanismo legítimo para aumentar as tarifas de eletricidade, para que o excedente fosse aplicado em construção de novas hidrelétricas. E construímos. E duplicamos, e triplicamos e decuplicamos nossa capacidade. E agora vai-se dar esse instrumento às empresas que comprarem, o direito de aumentar as taxas para fazerem hidrelétricas? Elas nem querem fazer hidrelétricas. Serão encargos do Governo, que tirará os recursos de onde, se a fonte secou?
Outros feitos foram o décimo terceiro salário, cuja tramitação teve todo o seu apoio; o controle do capital estrangeiro, cujo projeto chegou a ser aprovado na Câmara e no Senado; e a lei de remessa e lucros que o Jango regulamentou com a assessoria de Carvalho Pinto.
Quero terminar essa minha fala dizendo que a Jango devemos uma outra coisa muito bonita, que a meu coração fala especialmente: aquele senso de liberdade, de democracia e de criatividade cultural. É naquele período de Jango que surge um movimento poderoso que se estende a 1968: o movimento da bossa nova, o movimento do cinema novo, o movimento das canções de protesto, o movimento do teatro de opinião, movimentos que empolgavam toda a juventude, ganhando-a para si mesmo e para o País. Isso é o que falta hoje.
Quem vai ganhar essa juventude que a ditadura castrou e que aí está desbundada? (Palmas.) Isso me preocupa profundamente. Havia formas de concatenar a ação dos jovens para que eles fossem orgulhosos de ser brasileiros. E fossem quadros da nossa luta. Em 1968, na luta por manter aquele espírito, eles ofereceram os corações e os fígados às balas. Às dezenas foram mortos e torturados.
A beleza do movimento cultural é alguma coisa que devemos ao Governo de Jango, conciliador, persuasório, incapaz de violência. Acho mesmo, às vezes, que ele deveria ter tido um tom de violência um pouco maior, porque não há crime maior do que perder o poder. Mas não era da natureza de Jango. A formação dele não contribuía, de forma nenhuma, para uma guerra fratricida em que poderiam morrer milhões de brasileiros. Estamos aqui para recordar e saudar a memória desse homem por todos os títulos honrado e para que as pessoas se lembrem de que há outra versão, para a qual cada um de nós tem de contribuir.
Não é a versão de vencedor, que descreve aquele período como o período do Jango, que eles quiseram enfrentar da forma que fosse, sem nada a ver, de um governo que tinha conseguido constituir um partido revolucionário. Ora, a crença de Jango era a de que ele iria fazer o Partido Trabalhista Brasileiro igual ao inglês; que ele iria concorrer nas eleições e ganhar.
De fato, ele triplicou o número de Deputados trabalhistas. E mais, muito mais do que isso: Jango chamou ao Partido Trabalhista gente como Almino Affonso, que vinha de outras fontes: São Thiago Dantas, Hermes Lima e tanta gente mais. Introduziu na esquerda brasileira inclusive o eminente Presidente do Senado Federal, José Sarney, que naquele momento estava também na nossa luta. O que se quebrou foi aquela postura aberta, persuasória, de transformar o Brasil pelo consentimento das classes dominantes, em vista de que não dava prejuízo a ninguém, senão a quem não merecia atenção, que eram os latifundiários absenteístas.
Meus senhores, um dos meus orgulhos é o de ter sido o Chefe da Casa Civil do Presidente João Goulart". (Palmas.)

Genocídio

Genocídio - estamos matando nosso povo

A situação Brasil é tão grave que só se pode caracterizar a política econômica vigente como genocida. Estão matando nosso povo. Estão minando, carunchando a vida de milhões de brasileiros. Desnutrida, desfibrada , nossa gente acabará se tornando mentalmente deficiente para compreender seu próprio drama e fisicamente incapacitada para o trabalho no esforço de superação do atraso.

Vivemos um processo genocida. O digo com dor, mas com o senso de responsabilidade de um brasileiro sensível, ao drama de nosso povo. O digo, também, como antropólogo habituado a examinar os dramas humanos.

Vivemos, com efeito, um processo genocida que faz vítimas preferenciais entre as crianças, os velhos e as mulheres; entre os negros, os índios e os caboclos.

Quantas crianças brasileiras morrem anualmente de fome, de inanição ou vitimadas por enfermidades baratas, facilmente curáveis? Estatísticas estrangeiras, cautelosas, falam de meio milhão. Estatísticas nacionais, menos cautas, contam mais ele oitocentas mil. Quantas serão essas crianças que poderiam viver, e morreram? Cada uma delas nasceu de uma mulher, foi amada, acariciada numa família, deu lugar a sonhos e planos, nos dias, nas horas, nas semanas, nos meses, nos breves anos de sua vida parca. Seguindo a tradição, muita mãe chorou resignada, achando que melhor fora que Deus levasse sua cria do que a deixar aqui nesse vale de lágrimas.

Sobre este drama tão brasileiro, se alça outro ainda maior. Impensável há uns poucos anos. Indizível. Refiro-me ao assassinato de crianças por aparatos parapoliciais. Uma vez, quando chegava do exílio, vendo a miséria que se estendeu sobre o País, multiplicando trombadinhas, previ, horrorizado, que acabaríamos por ter uma guerra das Forças Armadas contra os pivetes.

Essa guerra atroz está em curso. Não é ainda uma operação militar das Forças Armadas. Mas é já uma guerra cruenta contra a infância e a juventude pobres, travada por organizações paramilitares clandestinas. Consentidas pelo Governo. Ignoradas pela Justiça. Apoiadas por pequenos empresários assustados e por pessoas que se sentem inseguras, essas organizações crescem, aliciando combatentes, vale dizer, criminosos, para a triste tarefa de estancar a vida de milhares de crianças e jovens vistos como perigosos.

Quantos jovens estamos matando a tiros cada ano? Ignoramos! Os números internacionalmente difundidos e que nossa imprensa repete falam de um pouco mais de quinhentos nas principais cidades. Mas todos sabemos que seu número é muitíssimo maior.

Outras vítimas desse genocídio são as mulheres brasileiras, mortas em abortos malconduzidos. Também não sabemos contar os números espantosos dessas brasileiras, morrendo ou se inutilizando no esforço de não ter mais filhos. Quem assume a culpa de suas mortes e do sofrimento de tantíssimas delas que, malcuidadas, levam, vida afora, suas genitálias rotas e estropiadas? Não há aqui um feio crime de conivência de quantos condenam o aborto à clandestinidade?

Pior ainda que esse genocídio, mil vezes pior para o destino de nosso povo, é o caso daquelas mulheres, milhões delas, induzidas a esterilizar-se em programas sinistros de contenção da natalidade. Está em curso, em nossa Pátria, todo um enorme e ricamente financiado programa internacional clandestino de controle familiar pela esterilização das mulheres pobres, sobretudo das pretas e mestiças. Seu êxito é tamanho que se avalia já, oficialmente, com números do IBGE, em 44% as mulheres brasileiras em idade fecunda já esterilizadas. Castradas.

Esse número espantoso faz temer que já não sejamos capazes nem mesmo de repor a população que temos. Acaso a população brasileira excede aos recursos de nosso território? Não! Decisivamente não. Nosso território fértil é maior que o dos Estados Unidos e a população deles é o dobro da nossa. Temos, portanto, ainda possibilidade de aumentar a nossa participação no gênero humano. O que excede no Brasil é a população marginalizada e excluída pela força de trabalho pelo desemprego generalizado, provocado pelo sistema econômico vigente, fundado na precedência do lucro sobre a necessidade.

Mas há quem saiba muito bem quantos brasileiros, a seu juízo, devem existir no ano 2050. Não só sabe, como atua para que esse medonho número desejável deles se cumpra sobre nós. Organizações estrangeiras e internacionais, atuando criminosamente em nosso País, já esterilizaram mais de sete milhões de brasileiras.

Fazem-no através de médicos subornados que induzem suas clientes a permitir que lhes seccionem as trompas no curso de partos, realizados através de cesarianas. O Brasil, para escândalo mundial e vergonha nossa, é o País em que mais se realizam esses partos cirúrgicos. É, também, aquele em que mais vezes se utiliza desse procedimento para esterilizar mulheres.

São nacionais os tristes dinheiros desse suborno? Quem aprovou, neste País, tal política demográfica? Que instituição suficientemente autorizada e responsável decidiu quantos brasileiros existirão no futuro? Alguém, clandestinamente, decidiu e esta aliciando os capadores de mulheres Brasil adentro.

Quem ponderou sobre os convenientes ou os inconvenientes de deixarmos de ser uma população majoritariamente juvenil, para sermos uma população majoritariamente senil? O que se está fazendo ao esterilizar tão grande parcela de nossa população feminina é forçar a optação por uma maioria de idosos.

Nosso povo preservará, depois dessa drástica cirurgia, a vitalidade indispensável para sair do atraso ou estará condenado a afundar cada vez mais no subdesenvolvimento? Quem está interessado em que o Brasil seja capado e esterilizado? Serão brasileiros?

Somos todos culpados

Somos Todos Culpados

Nunca faltaram vozes de denúncia desse caráter cruel de nossa sociedade. Inclusive vozes de reconhecimento de que é à nossa elite que ternos de debitar o desempenho medíocre do Brasil na civilização vigente. Cabe, agora, à nossa geração perguntar que culpa temos, enquanto classe dominante, no sacrifício e no sofrimento do povo brasileiro. Somos inocentes? Quem, letrado, não tem culpa neste País dos analfabetos? Quem, rico, está isento de responsabilidades neste País da miséria? Quem, saciado e farto, é inocente neste nosso País da fome? Somos todos culpados.

Nossos maiores, primeiro, nós próprios, depois, urdimos a teia inconsútil que é a rede em que nosso povo cresce constrangido e deformado. A característica mais nítida da sociedade brasileira é a desigualdade social que se expressa no altíssimo grau de irresponsabilidade social das elites e na distância que separa os ricos dos pobres, com imensa barreira de indiferença dos poderosos e de pavor dos oprimidos.

Nada do que interessa vitalmente ao povo preocupa de fato à elite brasileira. A quantidade e a qualidade da alimentação popular não podia ser mais escassa, nem pior. A qualidade de nossas escolas, a que o povo tem acesso, é tão ruim, que elas produzem de fato mais analfabetos que alfabetizados.

Os serviços de saúde de que a população dispõe são tão precários que epidemias e doenças já vencidas no passado voltam a grassar, como ocorre com a tuberculose, a lepra, a malária e inumeráveis outras.

A solução brasileira para a moradia popular, na realidade das coisas, é a favela ou o mocambo. Não conseguimos multiplicar nem mesmo essas precaríssimas casinhas de maribondo dos bancos da habitação e das caixas econômicas.

Nossa elite, bem nutrida, olha e dorme tranqüila. Não é com ela. Desafortunadamente, não é só a elite que revela essa indiferença fria ou disfarçada. Ela se espraia por toda a opinião pública, como hedionda herança comum de séculos de escravismo, enormemente agravada pela perpetuação da mesma postura ao longo de toda a república.

A triste verdade é que vivemos em estado de calamidade, indiferentes a ele porque a fome, o desemprego e a enfermidade não atingem os grupos privilegiados. O seqüestro de um rapaz rico mobiliza mais os meios de comunicação e o Parlamento do que o assassinato de mil crianças, o saqueio da Amazônia, ou o suicídio dos índios. E ninguém se escandaliza, nem sequer se comove com esses dramas.

A imprensa só protesta mornamente e o faz quando ecoa o que se divulga lá fora. Parece haver-se rompido o próprio nervo ético da nossa imprensa, que nos deu, no passado, tantos jornalistas cheios de indignação em campanhas imemoráveis de denúncia de toda sorte de iniqüidade. Hoje, quem determina o que se divulga, e com que calor se divulga qualquer coisa, não são os jornalistas, é o caixa, é a gerência dos órgãos de comunicação. E esta só está atenta as razões do lucro.

O que foi feito para pôr cobro a essa situação de calamidade? Na realidade dos fatos, nada foi feito. As vozes e o poderio dos que defendem os interesses do privatismo e as razões do lucro sobrepujam o clamor pelo atendimento das necessidades mais elementares do povo brasileiro. Nada é mais espantoso em nossos dias do que o fato de que quase ninguém se rebele contra o horror da paisagem humana do Brasil. Estamos matando, martirizando, sangrando, degradando, destruindo nosso povo! O conjunto das instituições públicas e das empresas privadas dessa nossa ingrata Pátria brasileira cios anos 90, o que faz, efetiva e eficazmente, é gastar o único bem que resultou de nossos séculos desta triste história: o povo brasileiro.

Somos, hoje, uma parcela ponderável da humanidade. Somamos mais de cento e sessenta milhões de brasileiros. Seríamos uma latinidade nova e louçã se alcançássemos coisas tão elementares como todo brasileiro comer todo dia, toda pessoa ter acesso a um emprego e toda criança progredir na escola. Mas não há nada disso. Nem há qualquer perspectiva de que isso se alcance em tempos previsíveis, pelos caminhos que vimos trilhando.

O lamentável é que temos tudo de que se necessita para que floresça no Brasil uma civilização bela e solidária. Herdamos uma das províncias maiores, mais belas e ricas do planeta. Somos um povo movido por uma incansável vontade de viver e de trabalhar, ativado pelo desejo mais intenso de felicidade, animado por uma alegria inverossímil para quem enfrenta tanta miséria. Contamos, ainda, com um corpo de empresários e de técnicos motivados e qualificados para a empresa de auto-superação que o Brasil tem que realizar.

Seremos impotentes para realizar as potencialidades de nossa terra e de nosso povo? É mesmo inevitável que continuemos enriquecendo os ricos e empobrecendo os pobres? Existe, por aí, algum projeto nacional alternativo, já formulado, que nos dê garantia de redenção?

Reiterar na rota política e no modelo de ação econômica que praticamos só nos dá segurança de perpetuação do atraso e até mesmo de genocídio, ou seja, de matança intencional do povo brasileiro, que é o que está em curso.

A ordem econômica vigente nada mais terna dar ao Brasil, senão miséria e mais miséria. O modelo de capitalismo que se viabilizou entre nós - aliás muito lucrativo - é impotente para criar uma prosperidade generalizável a todos os brasileiros.

Causas e culpas

Causas e Culpas

Vivemos, nós brasileiros, uma conjuntura trágica. 0 próprio destino nacional está em causa e é objeto de preocupação da cidadania mais lúcida e responsável. O aspecto mais grave e inquietante da crise que atravessamos é de natureza política. Frente a ela, as diretrizes econômicas, postas em prática por sucessivos governos, se caracterizam por uma incrível teimosia na manutenção de uma institucionalidade fundiária que condena o povo ao desemprego e à fome, pela mais crua insensibilidade social, por um servilismo vexatório diante de interesses alheios e pela mais irresponsável predisposição a alienar as principais peças constitutivas do patrimônio nacional.

Outra característica é sua animosidade frente ao Estado, visto como a fonte de todos os males. Será assim? Onde, nesse mundo, uma economia nacional floresceu sem um Estado que a conduzisse a metas prescritas? Onde estão esses empreendedores privados cuja sanha de lucrar promoveria o progresso nacional? Crerão esses fanáticos do neoliberalismo que o estado gerencial das multinacionais - que são entre nós o setor predominante das classes empresariais -se comove pelo destino nacional?

O que cumpre fazer em nosso País não é nenhuma modernização reflexa, dessas que atualizam um sistema produtivo apenas para fazê-lo mais eficaz no papel de provedor ele bens para o mercado mundial. É, isto sim, um salto evolutivo à condição de economia autônoma que exista e viva para si mesma, isto é, para seu povo. Para tanto, temos é que nos associar aos outros povos explorados, para denunciar e por um termo à ordem econômica vigente que faz os povos pobres custearem a prosperidade dos povos ricos através de um intercâmbio internacional gritantemente desigual.

Sobre essas bases é que se tem, necessariamente, de formular nosso projeto próprio de integração do Brasil na civilização pós-industrial, sempre atentos aos interesses nacionais, priorizando sempre o desenvolvimento social, ou seja, os interesses populares. A via da modernização reflexa pelo desenvolvimento dependente só nos faria fracassar na civilização emergente, tal como fracassamos ao tios integrarmos, por este mesmo caminho, à civilização industrial.

Só nós brasileiros, podemos definir esse projeto do Brasil que que ser. Não será, obviamente, o Brasil desejado pela minoria próspera que esta contentíssima com o Brasil tal qual é, e que só quer mais do que já tem. Mas o Brasil dos explorados e oprimidos que o modelo econômico vigente já levou a níveis incomprimíveis de miséria e desespero.

O Brasil como problema

O Brasil como problema

Por isso mesmo, o Brasil sempre foi, ainda é, um moinho de gastar gentes. Construímo-nos queimando milhões de índios. Depois, queimamos milhões de negros. Atualmente, estamos queimando, desgastando milhões de mestiços brasileiros, na produção não do que eles consomem, mas do que dá lucro às classes empresariais

Capítulo do livro de Darcy Ribeiro, O Brasil como Problema, editado em 1995, no Rio de Janeiro.

Ao longo dos séculos, viemos atribuindo o atraso do Brasil e a penúria dos brasileiros a falsas causas naturais e históricas, umas e outras imutáveis. Entre elas, fala-se dos inconvenientes do clima tropical, ignorando-se suas evidentes vantagens.

Acusa-se, também, a mestiçagem, desconhecendo que somos um povo feito do caldeamento de índios com negros e brancos, e que nos mestiços constituímos o cerne melhor de nosso povo.

Também se fala da religião católica como um defeito, sem olhos para ver a França e a Itália, magnificamente realizadas dentro dessa fé.

Há quem se refira à colonização lusitana, com nostalgia por uma mirífica colonização holandesa. É tolice de gente que, visivelmente, nunca foi ao Suriname.

Existe até quem queira atribuir nosso atraso a uma suposta juvenilidade do povo brasileiro, que ainda estaria na minoridade. Esses idiotas ignoram que somos cento e tantos anos mais velhos que os Estados Unidos.

Dizem, também, que nosso território é pobre - uma balela. Repetem, incansáveis, que nossa sociedade tradicional era muito atrasada - outra balela. Produzimos, no período colonial, muito mais riqueza de exportação que a América do Norte e edificamos cidades majestosas corno o Rio, a Bahia, Recife, Olinda, Ouro Preto, que eles jamais conheceram.

Trata-se, obviamente, do discurso ideológico de nossas elites. Muita gente boa, porém, em sua inocência, o interioriza e repete. De fato, o único fator causal inegável de nosso atraso é o caráter das classes dominantes brasileiras, que se escondem atrás desse discurso. Não há corno negar que a culpa do atraso nos cabe é a nós, os ricos, os brancos, os educados, que impusemos, desde sempre, ao Brasil, a hegemonia de uma elite retrógrada, que só atua em seu próprio beneficio.

O que temos sido, historicamente, é um proletariado externo do mercado internacional. O Brasil jamais existiu para si mesmo, no sentido de produzir o que atenda aos requisitos de sobrevivência e prosperidade de seu povo. Existimos é para servir a reclamos alheios.

Por isso mesmo, o Brasil sempre foi, ainda é, um moinho de gastar gentes. Construímo-nos queimando milhões de índios. Depois, queimamos milhões de negros. Atualmente, estamos queimando, desgastando milhões de mestiços brasileiros, na produção não do que eles consomem, mas do que dá lucro às classes empresariais

Não nos esqueçamos de que o Brasil foi formado e feito para produzir pau-de-tinta para o luxo europeu. Depois, açúcar para adoçar as bocas dos brancos e ouro para enriquecê-los. Após a independência, nos estruturamos para produzir algodão e café. Hoje, produzimos soja e minério de exportação. Para isso é existimos como nação e como governo, sempre infiéis ao povo engajado no trabalho, sofrendo fome crônica, sempre servis às exigências alheias do mercado internacional.

O mercado internacional, que nos viabiliza no plano econômico, é a peia que nos ata ao cativeiro e à pobreza. É necessário que seja assim? Por que outros povos que, no passado, foram mais pobres e menos ilustrados, como é o caso dos Estados Unidos, nos passaram à frente?

Qual é a causa real de nosso atraso e pobreza? Quem implantou esse sistema perverso e pervertido de gastar gente para produzir lucros e riquezas de uns poucos e pobreza de quase todos?

Como uma das principais nações pobres do mundo, estamos desafiados, até internacionalmente, a buscar e encontrar caminhos de superação do subdesenvolvimento autoperpetuante em que fornos todos metidos pela política econômica das potências vitoriosas no pós-guerra. Tanto mais porque não há, em nenhum lugar da Terra, um modelo comprovadamente eficaz de ação contra a crise político-econômica em que estamos afundados.

O mundo subdesenvolvido tem os olhos postos em nós. Espera do Brasil alguma solução para nossos problemas comuns. Todos já suspeitam que, persistindo no papel de proletariados externos dos povos ricos, nos perpetuaremos na pobreza. Todos perguntam: como romper com essa perversão econômica e com a tragédia social que dela decorre para duas terças partes da humanidade?

É impossível nos isolarmos do mercado mundial, que nos viabiliza economicamente. Mas se é impossível o isolamento, é pelo menos suicida a postura dos que querem continuar regidos tão rigidamente pelo mercado internacional, que torna inalcançável uma prosperidade generalizável a todos os brasileiros.

O desafio que enfrentamos é, pois, o de conquistar uma nova forma de intercâmbio internacional, (que não seja tão onerosa para nós. Isto importa em reordenar as forças produtivas para que elas atendam primacialmente às necessidades nacionais de prover nutrição, assistência, moradia, educação a toda a população, e à necessidade, também imperativa, de produzir divisas para atuarmos dentro do mercado mundial, comprando tecnologias.

Queremos, do capitalismo, o que ele deu à América do Norte ou à Austrália, por exemplo, como economias situadas no mercado mas sabendo tirar dele proveitos próprios. Nenhuma outra nação conseguiu tanto quanto eles e, provavelmente, só o Brasil tem condições de repetir a façanha, graças à nossa disponibilidade de recursos naturais, de terras agriculturáveis e de mão-de-obra qualificada.

A tarefa deles foi bem mais simples que a nossa, porque são meros transplantes sensaborões (1.1 Europa, que limparam o seu território dos nativos e reconstituíram a paisagem de onde vieram. No nosso caso, trata-se ele criar um Povo Novo pela fusão de matrizes muito diferenciadas, que dará lugar a tini novo gênero de sociedade. Nossas potencialidades vêm sendo coactadas, de um lado, pela armadilha em que caímos ao aceitar formas de intercâmbio internacional que nos empobrecem. Isso era inevitável, porque partimos da condição de um proletariado externo, cuja mão-de-obra não existia para si mas para produzir gêneros exportáveis, Nossas classes dominantes só sabiam mesmo fazer isso, porque eram, de fato, representantes locais cio mercado internacional. De outro lado, vem sendo coactadas pelo monopólio da terra e sua conseqüência principal, que foi urbanização caótica, devida ao translado de 100 milhões de brasileiros para a vida famélica das cidades. Essa massa humana, que é a parte substancial de nosso povo, jamais terá acesso aos bens da civilização enquanto nossa economia estiver enquadrada nas diretrizes que as elites nos impõem.

sexta-feira, setembro 09, 2005

Os Negros

A grande contribuição da cultura portuguesa aqui foi fazer o engenho de açúcar... movido por mão-de-obra escrava. Por isso, começaram a trazer milhões de escravos da África. O negócio maior do mercado mundial era a venda de açúcar para adoçar a boca do europeu e depois a remessa de ouro. Mas a despesa maior era comprar escravos. Os europeus sacanas iam à África e faziam grandes expedições de caça de negros que viviam ali uma vida como a dos índios aqui, com sua cultura, com sua língua, com seu modo... Metade morria na travessia, na brutalidade da chegada, de tristeza, mas milhões deles incorporaram-se ao Brasil.
E esses negros não podiam falar um com o outro, veja esse desafio como é tremendo. Eles vinham de povos diferentes. Então, o único modo de um negro falar com o outro era aprender a língua do capataz, que nunca quis ensinar português. Milagrosamente, genialmente esses negros aprenderam a falar português. Quem difundiu o português foi o negro, que se concentrou na área da costa de produção do açúcar e na área do ouro... Mas preste atenção: com os negros escravos vinham as molecas de 12 anos, bonitinhas. Uma moleca daquelas custava o preço de dois ou três escravos de trabalho. E os donos de escravos queriam muito comprar, e os capatazes também. Comprar uma moleca pra sacanagem. Mas essas molecas pariam filhos, e quem era o filho? Era como o filho da índia. Ele não era africano, visivelmente. Ele não era índio. Quem era ele ? Ele também era um "zé ninguém" procurando saber o que era. Ele só encontraria uma identidade no dia em que se definisse o que é o brasileiro.

Minas

No final do século XVII, a descoberta de ouro pelos paulistas nas terras do interior mudou os rumos do Brasil Colônia. Em menos de dez anos, chegaram à região das Minas mais de 30 mil pessoas, vindas de todo o país. Eram paulistas, baianos, senhores de engenho falidos e, principalmente, escravos. No começo da exploração muitos morriam de fome com o ouro nas mãos, já que não havia o que comer. Os tropeiros garantiam a sobrevivência vendendo comida e panos de algodão. Atraídos pelo ouro, muitos deles acabaram se fixando no cruzamento das rotas de comércio e estabeleceram as primeiras povoações. Desse modo abriram caminho para a ocupação do interior do país.

"No princípio eram principalmente índios nativos e uns poucos brancarrões importados. Depois, principalmente negros, vindos de longe, africanos. Mas logo, logo, veja só: eram multidões de mestiços, crioulos daqui mesmo."
Trecho do livro O Povo Brasileiro

Sobre Minas Gerais

"Minas foi o nó que atou o Brasil e fez dele uma coisa só."
Trecho do livro O Povo Brasileiro

Mestiçagem do corpo e da cultura

Há duas contribuições fundamentais nesse encontro: uma mestiçagem do corpo e uma mestiçagem da cultura. Em nós vivem milhões de índios, índios que foram esmagados porque a brutalidade do branco com o índio foi terrível. Esmagados porque o europeu tinha muita doença. Os índios não tinham cárie dentária, nem gripe, nem tuberculose... Cada enfermidade dessas era uma espécie de guerra biológica, matou índios em quantidade.
Estima-se em cinco milhões o número de indígenas que habitavam as terras brasileiras na ocasião da chegada dos portugueses. Dois séculos depois, eles não chegavam a dois milhões. Hoje, os sobreviventes somam duzentos e setenta mil habitantes, menos de meio por cento da população brasileira. Em cinco séculos desapareceram para sempre cerca de oitocentas etnias. Eram povos de diferentes culturas, que ocupavam vastos territórios de características geográficas distintas.
Mas esses índios que morriam sobreviviam naqueles mestiços que nasciam. Somos nós que carregamos no peito esses índios, os genes deles para reprodução e a sabedoria deles da mata. O Brasil só é explicável assim, é uma coisa diferente do mundo...

segunda-feira, setembro 05, 2005

Simon Bolívar

"Tenhamos presente que nosso povo não é o europeu, nem o americano do norte, é antes um composto de África e América do que uma emanação da Europa, pois que a Espanha mesma deixa de ser Europa pelo seu sangue africano, pelas suas instituições e por seu caráter. É impossível caracterizar com propriedade a que família humana pertencemos. A maior parte do indígena se aniquilou, o europeu mesclou-se com o americano e com o africano e este mesclou-se com o índio e com o europeu. Nascidos todos do seio de uma mesma mãe, nossos pais, diferentes em origem e em sangue, são estrangeiros, e todos diferem visivelmente na epiderme; esta dessemelhança traz uma ligação da maior importância." Simon Bolivar - Angostura 1819

Um homem de causas

" ... sou um homem de causas. Vivi sempre pregando, lutando, como um cruzado, pelas causas que comovem. Elas são muitas, demais: a salvação dos indios, a escolarização das crianças, a reforma agrária, o socialismo em liberdade, a universidade necessária. Na verdade, somei mais fracassos que vitórias em minhas lutas, mas isso não importa. Horrível seria ter ficado ao lado dos que venceram nessas batalhas. " ( Darcy Ribeiro - Sorbonne)

sexta-feira, setembro 02, 2005

Esquerda

(...) Não pense o leitor, pelo que digo aqui, que eu não goste das esquerdas. Muito ao contrário. Sou de esquerda e acho que ela é a salvação do mundo. Fora da esquerda só há indiferença, que é imbecil demais, ou a direita, que é sagaz demais. Eu as critico criticando a nós, sangrando em minha carne, porque isso é indispensável para que a esquerda cumpra sua missão, extraordinariamente difícil. Tão difícil que, ao longo da História, só temos conhecido derrotas. Estamos desafiados a um esforço de auto-superação para, afinal, vencer a reação. Existe uma intelectualidade vadia pregando que a direita é burra. Não é, não. Inclusive porque a maioria dos intelectuais com boa formação acadêmica está a serviço dela e é para isso subsidiada, quando não é direitista vocacional ou herdeira.
Tudo isso é tanto mais grave porque a direita tem em suas mãos e controla estritamente toda a mídia. Através dela, faz a cabeça de quase toda a classe média influente, convencida, pelo bombardeio diário dos jornais, das rádios e das televisões, que o mundo inteiro se está globalizando alegremente, e em benefício dos pobres. De que, se os ricos enriquecerem muito mais, distribuirão suas riquezaz com os pobres. De que a privatização é o caminho do progresso, mesmo quando se faz pela doação de bens públicos. De que os estrangeiros, ou os brasileiros com eles irmanados, são sempre melhores que os nativos. A pregação uníssona desse discurso torna-o cada vez mais verossímil, levando muita gente a embarcar nas canoas do neoliberalismo, da globalização e da privatização.
(Darcy Ribeiro, Confissões)

Educação

"A rica direita brasileira, desde sempre no poder, sempre soube dar, aqui ou lá fora, a melhor educação aos seus filhos. Aos pobres dava a caridade educativa mais barata que pudesse, indiferente à sua qualidade." (Darcy Ribeiro)

Sociedade democrática sem limites

A Sociedade Democrática Sem Limites
É espantoso que depois de 20 anos de ditadura e repressão, em apenas outros 20 um regime democrático conquistado a tão duras penas tenha se deteriorado tanto. Em nome dessa democracia tão mal compreendida os maiores absurdos acontecem.
Vivemos em uma sociedade desordenada, valores éticos e morais foram substituídos por posturas de qualidade duvidosa. Enfrentamos a violência do tráfico, do bandido, da polícia, do ladrão que agora mata, e do próprio ser humano.
Nos morros, os habitantes de bem, são refens e escudo de bandidos e traficantes. Ou vamos começar a levar a sério uma democracia que realmente respeite os direitos de uma maioria hoje insegura e sofrida ou aquela minoria barulhenta ainda vai levar a melhor.
Precisamos impor limites. Limites no crescimento das favelas, e na desordem dos mendigos, moradores de rua, crianças fora da escola, trabalhando e mendigando nos sinais ou cheirando cola na praia. Limite na proliferação de camelôs, ao mercado informal de trabalho.
Impor limites não significa autoritarismo ou repressão. Significa apenas que todos temos o direito a uma sociedade organizada. A explosão demográfica provocada pela migração da população rural já não tem mais condições de ser atendida nos grandes centros urbanos.Já há alguma indicação de voltar à terra de origem por parte daqueles que embarcaram no sonho da cidade grande e acabaran nas favelas. Parece utópico, mas pode não ser.
Por que não criamos as aldeias cooperativas, pequenos povoados com 100 a 120 famílias, com escola, saúde, agricultura com valor agregado ao produto? Aldeias auto-suficientes, capazes de manter o homem no campo e limitar a explosão demográfica dos contros urbanos.
Em nome da democracia, o que se considera direito de uma minoria não passa às vezes da capacidade que ela tem de fazer mais barulho.
Projetos assistencialistas e eleitoreiros gastam fortunas, enquanto a saúde e a educação pública já não são mais políticas prioritárias do Estado.
A situação caótica que salta aos olhos de quem quer ver, é o que acontece com a Educação Pública. Com orientação e políticas equivocadas, consideradas democráticas, nos últimos 25 anos cumpriu o triste papel de formar, cada vez mais, ignorantes, desinformados e incultos, incapazes de se exercerem como cidadãos. Essa mesma escola, forma professores que se mostram, é claro, também cada vez mais despreparados e desestimulados pelas próprias condições de trabalho.
A Escola Pública autônoma como ela é hoje, comprojeto político pedagógico próprio, com recursos e decisões nas mãos de diretores eleitos por razões políticas, e em sua maioria sem nenhum preparo, exercendo como podem a gerência administrativa da instituição, longe de ser um exemplo de democracia é profundamente discriminatória e excludente. Não alcançará, assim, um padrão de qualidade universal e privilegia os que tem sorte de poder freqüentar algumas unidades escolares com melhores propostas e bons diretores.
O Estado abdicou de suas funções constitucionais. A Escola Pública ficou entregue a um sistema político eleitoreiro e a interesses pessoais e locais. Poe incrível que possa parecer, são sempre os representantes da escola privada os que decidem os destinos da Escola Pública, desconhecendo o fato de que aquela, o próprio mercado se incumbe de regulamentar.
Escola democrática, que deve dar a todos as mesmas oportunidades, não existe. O Estado não tem política própria e universal de educação e se tivesse não conseguiria implantá-la, já que "Cada escola é uma escola" e cada diretor é dono da sua.
Enquanto as funções previstas na Constituição não forem reassumidas pelo Estado, enquanto as Secretarias de Educação não tiverem de novo nas mãos o comando das políticas educacionais, enquanto cada escola tiver o seu projeto e a sua própria organização, não conseguiremos resgatar o papel democratizador da Educação.
Sem reconstruirmos essa base não conseguiremos uma educação de qualidade para esse povo que, desinformado e despreparado, exerce tão mal a sua cidadania.
As soluções popaliativas de curto prazo não resolvem se não vêm acompanhadas de uma reformulação de base, em todas as estruturas políticas e sociais.
Nossas estruturas políticas e sociais estão ultrapassadas. Precisamos, agora, já, repensar todo o processo brasileiro, a começar pela reforma política, que tem levado à corrupção, à perda de valores éticos e morais e ao descompromisso com o povo.
(Fundação Darcy Ribeiro)

terça-feira, agosto 30, 2005

Mestiço é que é bom

“Mas, olha, o que eu digo sempre, é muito fácil fazer uma Austrália: pega meia dúzia de franceses, ingleses, irlandeses e italianos, joga numa ilha deserta, eles matam os índios e fazem uma Inglaterra de segunda, porra, ou de terceira, aquela merda.

"O Brasil precisa aprender que aquilo é uma merda. Que o Canadá é uma merda, porque repete a Europa. É para ver que nós temos a aventura de fazer o gênero novo. A mestiçagem na carne e no espírito. Mestiço é que é bom.”

(Ribeiro em "Mestiço é que é bom", Ed. Revan)


Darcy Ribeiro

Gentileza Academia Brasileira de Letras www.academia.org.br

Darcy Ribeiro, etnólogo, antropólogo, professor, educador, ensaísta e romancista, nasceu em Montes Claros (MG), em 26 de outubro de 1922, e faleceu em Brasília, DF, em 17 de fevereiro de 1997. Eleito em 8 de outubro de 1992 para a Cadeira n. 11, sucedendo a Deolindo Couto, foi recebido em 14 de abril de 1993, pelo acadêmico Candido Mendes de Almeida.

Diplomou-se em Ciências Sociais pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo (1946), com especialização em Antropologia. Etnólogo do Serviço de Proteção aos Índios, dedicou os primeiros anos de vida profissional (1947-56) ao estudo dos índios do Mato Grosso, Amazonas, Brasil Central, Paraná e Santa Catarina. Nesse período fundou o Museu do Índio, que dirigiu até 1947, e criou o Parque Indígena do Xingu. Escreveu uma vasta obra etnográfica e de defesa da causa indígena. Elaborou para a UNESCO um estudo do impacto da civilização sobre os grupos indígenas brasileiros no século XX e colaborou com a Organização Internacional do Trabalho na preparação de um manual sobre os povos aborígenes de todo o mundo. Organizou e dirigiu o primeiro curso de pós-graduação em Antropologia, tendo sido professor de Etnologia da Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil (1955-56).

Diretor de Estudos Sociais do Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais do MEC (1957-61); presidente da Associação Brasileira de Antropologia. Participou com Anísio Teixeira, da defesa da escola pública; criou a Universidade de Brasília, de que foi o primeiro reitor; foi ministro da Educação do Governo Jânio Quadros (1961) e chefe da Casa Civil do Governo João Goulart, tendo sido um dos líderes das reformas estruturais. Com o golpe militar de 64, teve os direitos políticos cassados e foi exilado.

Viveu em vários países da América Latina, conduzindo programas de reforma universitária, com base nas idéias que defendeu em A Universidade necessária. Professor de Antropologia da Universidade Oriental do Uruguai; foi assessor do presidente Salvador Allende, no Chile, e de Velasco Alvarado, no Peru. Escreveu nesse período os cinco volumes de seus estudos de Antropologia da Civilização (O processo civilizatório, As Américas e a civilização, O dilema da América Latina, Os brasileiros - 1. Teoria do Brasil e Os índios e a civilização), nos quais propõe uma teoria explicativa das causas do desenvolvimento desigual dos povos americanos.

Ainda no exílio, escreveu dois romances: Maíra e O mulo, aos quais acrescentou, mais tarde, Utopia selvagem e Migo. Publicou Aos trancos e barrancos, que é um balanço crítico da história brasileira de 1900 a 1980. Publicou também a coletânea de ensaios insólitos Sobre o óbvio e um balanço da sua vida intelectual: Testemunho. Editou, juntamente com Berta G. Ribeiro, a Suma etnológica brasileira. Publicou, pela Biblioteca Ayacucho, em espanhol, e pela Editora Vozes, em português, A fundação do Brasil, um compêndio de textos históricos dos séculos XVI e XVII, comentados por Carlos Moreira e precedidos de longo ensaio analítico sobre os primórdios do Brasil.

Em 1976, retornou ao Brasil, sendo anistiado em 1980. Voltou a dedicar-se à educação e à política. Participando do PDT com Leonel Brizola, foi eleito vice-governador do Estado do Rio de Janeiro (1982). Foi cumulativamente secretário de Estado da Cultura e coordenador do Programa Especial de Educação, com o encargo de implantar 500 CIEPs no Estado do Rio de Janeiro. Criou também a Biblioteca Pública Estadual, a Casa França-Brasil, a Casa Laura Alvim, o Centro Infantil de Cultura de Ipanema e o Sambódromo, em que colocou 200 salas de aula para fazê-lo funcionar também como uma enorme escola primária.

Em 1990, foi eleito senador da República, função que exerceu defendendo vários projetos, entre eles uma lei de trânsito para proteger os pedestres contra a selvageria dos motoristas; uma lei dos transplantes que, invertendo as regras vigentes, torna possível usar os órgãos dos mortos para salvar os vivos; uma lei contra o uso vicioso da cola de sapateiro que envenena e mata milhares de crianças. Publicou, pelo Senado Federal, a revista Carta, onde os principais problemas do Brasil e do mundo são analisados e discutidos. Foi também secretário extraordinário de Projetos Especiais do Estado do Rio de Janeiro. Colaborou com o governador Leonel Brizola na conclusão dos CIEPs e com o Governo Federal nas condução pedagógica dos CIACs. Ocupou-se ainda da revitalização da Floresta da Pedra Branca, da implantação de uma Universidade do Terceiro Milênio no norte fluminense e da criação da Escola Superior da Paz.

Entre suas façanhas maiores conta-se haver contribuído para o tombamento de 98 quilômetros de belíssimas praias e encostas, além de mais de mil casas do Rio antigo. Colaborou na criação do Memorial da América Latina, edificado em São Paulo com projeto do arquiteto Oscar Niemeyer. Gravou um disco na série mexicana "Vozes da América". E mereceu títulos de Doutor Honoris Causa da Sorbonne, da Universidade de Copenhague, da Universidade do Uruguai, da Universidade da Venezuela e da Universidade de Brasília (1995). Prêmio Fábio Prado, de São Paulo (1950).

Entre 1992 e 1994, ocupou-se de completar a rede dos CIEPs; de criar um novo padrão de ensino médio, através dos Ginásios Públicos; e de implantar e consolidar a nova Universidade Estadual do Norte Fluminense, com a ambição de ser uma Universidade do Terceiro Milênio. No Rio de Janeiro, revitalizou a Floresta da Pedra Branca, numa área de 12.000 hectares.

Em 1995, lançou seu mais recente livro, O povo brasileiro, que encerra a coleção de seus Estudos de Antropologia da Civilização, além de uma compilação de seus discursos e ensaios intitulada O Brasil como problema. Lançou, ainda, um livro para adolescentes, Noções das coisas, com ilustrações de Ziraldo, considerado, em 1996, como altamente recomendável pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil.

Em 1996, entregou à Editora Companhia das Letras seus Diários índios, em que reproduziu anotações que fez durante dois anos de convívio e de estudo dos índios Urubu-Kaapor, da Amazônia. Seu primeiro romance, Maíra, recebeu uma edição comemorativa de seus 20 anos, incluindo resenhas e críticas de Antonio Callado, Alfredo Bosi, Antonio Houaiss, Maria Luíza Ramos e de outros especialistas em literatura e antropologia. Ainda nesse ano, recebeu o Prêmio Interamericano de Educação Andrés Bello, concedido pela OEA.

Obras ETNOLOGIA: Culturas e línguas indígenas do Brasil (1957); Arte plumária dos índios Kaapo (1957); A política indigenista brasileira (1962); Os índios e a civilização (1970); Uira sai, à procura de Deus (1974); Configurações histórico-culturais dos povos americanos (1975); Suma etnológica brasileira, em colaboração com Berta G. Ribeiro (1986, 3 vols.). ANTROPOLOGIA DA CIVILIZAÇÃO: O processo civilizatório - Etapas da evolução sócio-cultural (1978); As Américas e a civilização - Processo de formação e causas do desenvolvimento cultural desigual dos povos americanos (1970); O dilema da América Latina - Estruturas do poder e forças insurgentes (1978); Os brasileiros - 1. Teoria do Brasil (1972); Os índios e a civilização - A integração das populações indígenas no Brasil moderno (1970); The Culture - Historical Configurations of the American Peoples (1970; edição brasileira, (1975); O povo brasileiro - A formação e o sentido do Brasil (1995).

ROMANCE: Maíra (1976); O mulo (1981); Utopia selvagem (1982); Migo (1988).

ENSAIOS: Kadiwéu - Ensaios etnológicos sobre o saber, o azar e a beleza (1950); Configurações histórico-culturais dos povos americanos (1975); Sobre o óbvio - Ensaios insólitos (1979); Aos trancos e barrancos - Como o Brasil deu no que deu (1985); América Latina: a pátria grande (1986); Testemunho (1990); A fundação do Brasil - 1500/1700 - em colaboração com Carlos Araújo Moreira Neto (1992); O Brasil como problema (1995); Noções de coisas. Com ilustrações de Ziraldo (1995).

EDUCAÇÃO: Plano orientador da Universidade de Brasília (1962); A Universidade necessária (1969); Propuestas - Acerca da la Renovación (1970); Université des Sciences Humaines d’Alger (1972); La Universidad peruana (1974); UnB - Invenção e descaminho (1978); Nossa escola é uma calamidade (1984); Universidade do terceiro milênio - Plano orientador da Universidade Estadual do Norte Fluminense (1993). Obras suas foram traduzidas para o inglês, o alemão, o espanhol, o francês, o italiano, o hebraico, o húngaro e o tcheco.