A dívida com a escola pública (Folha Dirigida - Educação - 11/11/03)
O ano era 1983, o último do Regime Militar no Brasil. Em abril do ano seguinte, o movimento das Diretas Já! abriria espaço para a volta da democracia. No interior do estado do Rio de Janeiro, mais precisamente em Mendes, cidade a 92 quilômetros da capital, professores se reuniam, pela primeira vez na história do país, para discutir as políticas educacionais a serem adotadas nos próximos anos.
O Encontro de Mendes, como ficou conhecido, foi organizado pela professora Rosiska Darcy de Oliveira, juntamente com o vice-governador da época, o educador Darcy Ribeiro. Após 20 anos, a professora se diz decepcionada. "Houve uma grande frustração, porque apesar da mobilização imensa, do enorme entusiasmo e da impressão que tinhámos de que estávamos decolando para uma nova era da educação, não houve continuidade", lamenta.
Além de professora, Rosiska possui um vasto currículo de realizações e conquistas. Atualmente, ela é presidente (e uma das fundadoras) do Instituto de Ação Cultural (Idac) e presidente do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher. Escritora, comemora o lançamento de "Reengenharia do Tempo", sua mais recente obra. Foi com este entusiasmo que a professora recebeu a equipe da FOLHA DIRIGIDA na sede do Idac, no Jardim Botânico, para entrevista.
Durante a conversa, Rosiska opinou sobre as suas três principais lutas: pela educação, pela cultura e pelos direitos das mulheres. Confira a entrevista completa:
Folha Dirigida - O Brasil reconhece o valor da educação?
Rosiska Darcy - Nunca reconheceu. Talvez só ultimamente é que se esteja dando conta do prejuízo que isso trouxe ao país. A educação seria a única solução possível para melhorar as condições de pobreza do país. Por isso, programa de combate à pobreza, fundamentalmente, é um programa de boa educação. O Brasil nunca deu a devida importância, tanto assim que a educação é vista como um gasto e não como um investimento.
Folha Dirigida - Qual é o grande problema da educação brasileira?
Rosiska Darcy - É muito difícil dizer qual é o grande problema. A educação brasileira tem uma infinidade deles. O mais gravíssimo, com certeza, é a morte da escola pública, que sempre foi um elemento de mobilidade social das classes mais pobres e uma formadora de mão-de-obra qualificada em todos os níveis da sociedade. Hoje, a escola pública educa mal, mesmo que tenha matriculado um grande número de crianças. Um segundo grande problema, que envolve inclusive as escolas supostamente bem aparelhadas, é que há uma inadequação ao nosso tempo. Vivemos uma mudança de era, que implica em mudanças de conhecimentos. Nesta era da informação, os conhecimentos têm uma combustão muito rápida. Aquilo que se aprende, muito rapidamente, já não serve para nada. E o sistema escolar está montado como se a pessoa pudesse ainda ter um período de formação antes da entrada no mundo do trabalho. Não é mais assim. A distribuição social do conhecimento deveria ser organizada de outra maneira para responder a esta necessidade.
Folha Dirigida - Os cursos técnicos, que mesclam formação e profissionalização, seriam as melhores alternativas para responder a esta necessidade?
Rosiska Darcy - Não, não é isso. Um estudante de Engenharia, por exemplo, aprende determinadas coisas na faculdade e, quando se forma, encontra conhecimentos novos que não existiam no início de seu curso. Portanto, há uma necessidade de reciclagem, em todas as carreiras, não apenas na Engenharia. Essa necessidade de formação permanente, que se impõe por conta da rapidez das mudanças tecnológicas, implica em uma organização na distribuição do conhecimento diferente daquela que vivíamos na minha geração. Naquela época, se estudava até os 22 anos na faculdade e depois, a pessoa passaria a atuar como profissional e viveria apenas daquilo que aprendeu na faculdade. Hoje não é mais assim. A qualquer época da vida, deveria ser possível construir pontes entre o mundo do trabalho e a educação, de maneira que as pessoas pudessem permanentemente se reciclar.
Folha Dirigida - Como seria possível esta constante reciclagem?
Rosiska Darcy - As empresas já estão fazendo isso, até mais do que o governo. Elas sabem melhor do que ninguém que, se não fizeram, não serão competitivas, pois não terão quadros qualificados. Talvez, caberia ao Ministério da Educação a responsabilidade de estudar inovações na distribuição do conhecimento. É preciso pensar o sistema educacional até a faculdade com um circuito de aprendizagem que deve ser alargado como forma de educação permanente. Isso é importantíssimo para as formações de ponta. Afinal, envolve a questão dos grandes problemas da educação, pois há uma base terrível, com analfabetismo, repetência e escola pública ruim, e na outra ponta, há uma inadequação na organização dos estudos à era em que estamos vivendo. São dois exemplos extremos, um com pessoas com baixa formação e outro com pessoas com alta formação.
Folha Dirigida - Em 1983, aconteceu o Encontro de Mendes, que reuniu professores de todo o estado do Rio de Janeiro e políticos da época. A senhora, juntamente com Darcy Ribeiro, foi uma das organizadoras do evento. Como foi esta experiência?
Rosiska Darcy - Tenho muito orgulho disso. O que aconteceu em Mendes foi o seguinte: o professor Darcy Ribeiro resolveu colocar em discussão um conjunto de teses sobre educação. Teses essas que redigi juntamente com ele e que foram publicadas em um jornal que eu editei, chamado "Escola Viva". As teses cobriam vários temas, relativos à situação da educação naquele momento e o Darcy queria fazer com que todo o corpo docente do estado discutisse essas teses. Era uma tentativa de fazer um grande processo de qualificação profissional dos professores. Em Mendes, houve a chegada do encontro. Eram 60 mil professores que, durante uma semana, foram se aproximando de Mendes por afunilamento. Ou seja, começou nas escolas, com todos os 60 mil discutindo, depois iam-se criando grupos menores e delegações, até que os delegados chegaram a Mendes. E lá houve um grande debate. Foi um momento muito importante do pensamento sobre a educação no estado do Rio de Janeiro.
Folha Dirigida - O Encontro de Mendes foi a primeira vez em que se discutiram políticas educacionais, até mesmo devido ao período histórico pelo qual o Brasil havia atravessado. O que mudou depois deste encontro?
Rosiska Darcy - Daí, nasceu a idéia dos Centros Integrados de Educação Pública (Cieps), um passo importante na educação. Os Cieps foram uma experiência que poderia ter sido algo fantástico, mas que foi, de certa maneira, abortado. Os governos que sucederam não deram aos Cieps a importância que eles mereciam. E do Encontro de Mendes, não nasceram apenas os Cieps. Nasceu também uma consciência crítica importante para uma parte do corpo docente. Estes seriam os efeitos positivos do encontro. Como efeito negativo, houve uma grande frustração, porque apesar da mobilização imensa, do enorme entusiasmo e da impressão que tínhamos de que estávamos decolando para uma nova era da educação, não houve continuidade. Para mim, pelo menos, houve uma grande frustração. Lamento imensamente que aquela experiência não tenha continuado.
Folha Dirigida - Que comparação a senhora faria da qualificação dos profissionais daquela época com a existente agora?
Rosiska Darcy - A qualificação dos professores vem se tornando cada vez mais rarefeita, até porque há uma dificuldade muito grande para que ela aconteça. A vida se tornou muito acelerada. Os professores têm menos tempo e são obrigados a trabalhar em vários colégios para ganhar a vida. Eles não estão organizados de maneira que seja possível aprender todo o conhecimento acumulado. Então, há um risco, e não estou querendo dizer que isto vai acontecer realmente, de uma progressiva desqualificação, se não houver um investimento neste sentido e se não for repensada a formação dos professores como uma questão estratégica da educação. Esta é uma questão na qual esbarra qualquer projeto, por melhor que ele seja. Não adianta você fazer um grande projeto educativo: se você não tiver bons professores, você não leva nada adiante.
Folha Dirigida - A senhora fundou, juntamente com Paulo Freire, o Instituto de Ação Cultural (Idac). Qual a importância de promover a cultura em um país como o Brasil?
Rosiska Darcy - Tenho uma visão muito particular sobre essa questão de cultura. Acho que a maneira de promover cultura é deixá-la acontecer e não impedir que ela aconteça. O Brasil é um país que tem uma vitalidade cultural extraordinária. É uma sociedade imensamente produtiva do ponto de vista cultural. Se a gente não atrapalhar, já faz muito. E se quiser ajudar, evidentemente, será dando voz a quem já está falando. Ou seja, deve-se impedir que essa criatividade se perca por falta de meios, por falta de espaço ou por um massacre de uma concorrência desleal.
Folha Dirigida - A senhora acredita que as influências estrangeiras na cultura são prejudiciais?
Rosiska Darcy - Não. É muito perigoso dizer que influências estrangeiras na cultura são prejudiciais. Temos uma cultura fortíssima, perfeitamente capaz de se defender. E mais ainda: temos muito a dizer fora daqui. Então, seria estranho querer defender a cultura brasileira de toda e qualquer influência externa, porque assim, também não se poderia exercer nenhuma influência. Defendo há muitos anos que a melhor arma de política externa brasileira é a sua cultura. O Brasil não possui nenhum poderio militar ou econômico, mas é, definitivamente, uma potência cultural. Fazemos parte de um país onde se consegue trabalhar problemas que, fora daqui, não são resolvidos. Vou dar um exemplo: a tolerância religiosa. Vivemos em um mundo onde há intolerância religiosa em diversos lugares. O Brasil, entretanto, é um país tolerante. Há uma convivência religiosa que, senão perfeita, passa por crises muito menos agudas do que as que a gente vê fora daqui. Então, essas características culturais do Brasil são exemplares para o resto do mundo. Gosto quando o Brasil fala para fora e por isso, não posso impedir que ninguém fale para cá.
Folha Dirigida - A senhora também é conhecida pela luta travada em favor dos direitos das mulheres. A situação da mulher brasileira mudou nas últimas décadas?
Rosiska Darcy - Foi uma verdadeira revolução. E uso a palavra sabendo o peso que ela tem. Houve uma migração impressionante do espaço privado para o espaço público. Hoje, dados comprovam que metade da população economicamente ativa brasileira é feminina e que 51% das matrículas em todos os níveis escolares, incluindo a universidade, são femininas. As mulheres mudaram completamente de lugar na sociedade brasileira. Evidentemente, persistem anacronismos, que são ainda mais inexplicáveis do que já eram antes. Um exemplo é a violência contra as mulheres, que continua a existir. Porém, acredito que ela vai desaparecer quando a sociedade execrá-la como já execra, por exemplo, a violência de um filho contra a mãe. Portanto, se nos mantivermos, e me refiro a mulheres e a homens democratas e civilizados, em uma posição firme de condenação a isto, vamos mudar a situação.
Folha Dirigida - Além das conquistas indiscutíveis, houve também equívocos no movimento pelos direitos das mulheres?
Rosiska Darcy - No meu novo livro, "Reengenharia do Tempo", discuto esse ponto. A verdade é que as mulheres da minha geração aceitaram condições de trabalho muito ruins quando negociaram sua entrada maciça no mercado. Esse talvez tenha sido um equívoco, mas não totalmente, porque era a consciência possível da época. Aceitamos nossa entrada no mercado de trabalho como se isso fosse um favor que nos era feito. E por ser um favor, aceitamos as piores condições. As mulheres passaram a ocultar a vida privada, como se ela não existisse, para não incomodar o mundo do trabalho. Então, chegava-se em uma empresa e dizia-se: "Me deixa entrar que você não vai perceber que sou mulher. Você não vai perceber que tenho família e filhos". E em casa, dizia-se para os maridos: "Me deixa sair que você nem vai perceber. Isso aqui vai ficar exatamente como era antes". Enfim, as mulheres tentaram fazer com que duas vidas coubessem dentro de 24 horas, o que é impossível. Hoje, muitas mulheres continuam fazendo isso, mas elas, e os homens também, sentem que há um problema. A família atual é uma realidade completamente diferente de alguns anos atrás. Não existe mais a figura do homem provedor, que sustenta a família. Homens e mulheres trabalham e dividem responsabilidades. Por isso, digo que é preciso fazer uma reengenharia do tempo.
Folha Dirigida - Como seria esta reengenharia do tempo?
Rosiska Darcy - O mundo do trabalho deve mudar suas temporalidades para que todos, homens e mulheres, trabalhem em jornadas menores ou flexíveis. Há um mundo de coisas a serem discutidas, mas o importante é não fazer de conta que a vida privada não existe ou que há uma mulher cuidando disso, porque não existe mais esta situação. Talvez, voltando à questão dos equívocos, a luta pelos direitos das mulheres tenha prejudicado bastante as pessoas que dependiam das mulheres, como crianças e idosos, que não têm mais a acolhida que tinham antes. E, quando normalmente digo isso, sempre o pensamento conservador se levanta para dizer: "Mas então as mulheres não deveriam ter saído de casa". No que respondo: "Não deviam coisa nenhuma: tinham que ter saído. Primeiro, porque queriam, e só isso já basta como argumento". As mulheres queriam ter independência e liberdade, o que é justíssimo. Agora, se na minha geração isso foi uma escolha, hoje, é uma necessidade. Com o atual mercado, em que há trabalho mas não há emprego e quase ninguém tem emprego fixo com carteira assinada, um casal que constitui família tem que ter pelo menos dois salários. Então, mais do que nunca, nesse momento, as mulheres têm que trabalhar, queiram ou não queiram.
Folha Dirigida - Em que medida a educação atuou como agente transformador nesse processo?
Rosiska Darcy - Foi um fator muito importante. Nesse sentido, a escola pública universal foi fundamental, porque acolhia meninos e meninas, apesar das discriminações internas. O fato de as mulheres terem se qualificado profissionalmente, em alguns casos até com alto nível de qualificação, também abriu-lhes melhores condições no mercado de trabalho. Atualmente, existem mais doutorados sendo feitos por mulheres do que por homens. Portanto, a figura da mulher dependente economicamente do marido, que aceitava qualquer condição de vida conjugal porque não tinha como sair dela, é algo que ficou para trás. Hoje, isso é bastante minoritário, o que provém liberdade para as mulheres. E para os homens também, pois a situação de provedor único é complicada e injusta.
Folha Dirigida - Ser professor, por muitos anos, foi visto como uma profissão majoritariamente feminina. Esta situação continua?
Rosiska Darcy - Continua e é algo estatisticamente verdadeiro. As mulheres ainda são majoritárias no ensino, embora a tendência da sociedade brasileira deve ser de cada vez mais os homens também ocuparem estas funções. A divisão de papéis está por um fio, é uma questão de duas gerações. Hoje, você entra em um hospital e descobre que metade dos médicos são médicas. Você entra em um fórum, metade dos advogados são advogadas. E dentro das escolas, os homens passam a se interessar mais pelo ensino também. Da mesma maneira que as mulheres se apropriaram dos espaços do universo masculino, os homens terão cada vez mais direitos sobre o universo feminino também. E não são só as profissões que eles vão reivindicar. Eles querem o direito de criar os filhos, de ter tempo dentro de casa e de ficar com suas famílias. Outro dia, me perguntaram: "Mas você não acha que o feminismo acabou?" e eu disse: "O feminismo está apenas começando". É nesta geração agora que começa o feminismo. A minha foi uma geração que fez confusão, protestou e conseguiu mudar tudo. Mas quem colhe as conseqüências sociais boas é a geração de agora. E o melhor resultado da luta das mulheres foi ter quebrado preconceitos de todos os tipos. Foi aberta uma grande margem de liberdade para todo mundo, para homens e mulheres. Hoje, pode-se escolher entre casar ou não, ter filhos ou não, ter filhos dentro ou fora do casamento ou viver com uma pessoa do mesmo sexo. Ninguém mais se assusta com isso, não é o escândalo que foi na minha geração. É um mundo de liberdades que, na minha geração, era totalmente impensável.
Folha Dirigida - Alguns educadores criticam o sistema educacional brasileiro porque, segundo eles, é um modelo que reproduz preconceitos e estereótipos. A senhora concorda com isso?
Rosiska Darcy - Se os parâmetros do Ministério da Educação forem analisados, vamos verificar que houve um passo muito grande para eliminar isso. É evidente que um papel no ministério não significa que vão ser modificadas as atitudes dos professores. Mas esses processos estão rápidos. É claro que a gente vem de muito longe, embora, em 30 anos, mudou-se o que havia sido a história humana até ali, quebrou-se um paradigma milenar. Hoje, os próprios jovens que optam por serem professores já não refletem tantos preconceitos e estereótipos, porque eles mesmos não os têm. Isso se reflete nas crianças.
Folha Dirigida - A educação brasileira está carente de pensadores como Paulo Freire e Darcy Ribeiro, com quem a senhora trabalhou?
Rosiska Darcy - Imensamente. Tanto Paulo como Darcy foram homens de horizontes amplos e que conheciam o mundo. Tive o privilégio de trabalhar com Paulo Freire por 10 anos fora do país, na África, na Europa e nos Estados Unidos. Sou testemunha do seu imenso prestígio no mundo inteiro até hoje, mesmo falecido. Ele realmente fez uma revolução no pensamento educativo. Com Darcy Ribeiro, aconteceu o mesmo. Ele era não só um pensador, como também um realizador. Ambos tinham a grande qualidade de não serem tecnocratas da educação. Eles eram filósofos da educação e tinham o sentido prático de fazer as coisas acontecerem. Paulo e Darcy tinham, sobretudo, uma visão larga do que é a educação para uma sociedade, não a encarando apenas como uma formadora de mão-de-obra. Eles eram educadores, muito mais que instrutores. Hoje, a educação entrou em um trilho tecnocrático. Há uma grande preocupação de formar mão-de-obra, que não deixa de ser justa, mas também é muito importante formar os espíritos. Para isso, precisa-se ter um projeto de futuro para a juventude. E tanto Paulo Freire quanto Darcy Ribeiro tinham um projeto para o Brasil. Não sei se as pessoas que tratam hoje da educação tenham um projeto para o Brasil. Acredito que o ministro Cristovam Buarque tenha, só não sei se ele vai conseguir realizá-lo. O ex-ministro Paulo Renato fez muito no campo da educação, trabalhou bastante e conseguiu resultados importantes. O problema, como já disse, é que a gente vem de longe. Então, o caminho para melhorar a educação é difícil.