terça-feira, agosto 30, 2005

Mestiço é que é bom

“Mas, olha, o que eu digo sempre, é muito fácil fazer uma Austrália: pega meia dúzia de franceses, ingleses, irlandeses e italianos, joga numa ilha deserta, eles matam os índios e fazem uma Inglaterra de segunda, porra, ou de terceira, aquela merda.

"O Brasil precisa aprender que aquilo é uma merda. Que o Canadá é uma merda, porque repete a Europa. É para ver que nós temos a aventura de fazer o gênero novo. A mestiçagem na carne e no espírito. Mestiço é que é bom.”

(Ribeiro em "Mestiço é que é bom", Ed. Revan)


Darcy Ribeiro

Gentileza Academia Brasileira de Letras www.academia.org.br

Darcy Ribeiro, etnólogo, antropólogo, professor, educador, ensaísta e romancista, nasceu em Montes Claros (MG), em 26 de outubro de 1922, e faleceu em Brasília, DF, em 17 de fevereiro de 1997. Eleito em 8 de outubro de 1992 para a Cadeira n. 11, sucedendo a Deolindo Couto, foi recebido em 14 de abril de 1993, pelo acadêmico Candido Mendes de Almeida.

Diplomou-se em Ciências Sociais pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo (1946), com especialização em Antropologia. Etnólogo do Serviço de Proteção aos Índios, dedicou os primeiros anos de vida profissional (1947-56) ao estudo dos índios do Mato Grosso, Amazonas, Brasil Central, Paraná e Santa Catarina. Nesse período fundou o Museu do Índio, que dirigiu até 1947, e criou o Parque Indígena do Xingu. Escreveu uma vasta obra etnográfica e de defesa da causa indígena. Elaborou para a UNESCO um estudo do impacto da civilização sobre os grupos indígenas brasileiros no século XX e colaborou com a Organização Internacional do Trabalho na preparação de um manual sobre os povos aborígenes de todo o mundo. Organizou e dirigiu o primeiro curso de pós-graduação em Antropologia, tendo sido professor de Etnologia da Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil (1955-56).

Diretor de Estudos Sociais do Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais do MEC (1957-61); presidente da Associação Brasileira de Antropologia. Participou com Anísio Teixeira, da defesa da escola pública; criou a Universidade de Brasília, de que foi o primeiro reitor; foi ministro da Educação do Governo Jânio Quadros (1961) e chefe da Casa Civil do Governo João Goulart, tendo sido um dos líderes das reformas estruturais. Com o golpe militar de 64, teve os direitos políticos cassados e foi exilado.

Viveu em vários países da América Latina, conduzindo programas de reforma universitária, com base nas idéias que defendeu em A Universidade necessária. Professor de Antropologia da Universidade Oriental do Uruguai; foi assessor do presidente Salvador Allende, no Chile, e de Velasco Alvarado, no Peru. Escreveu nesse período os cinco volumes de seus estudos de Antropologia da Civilização (O processo civilizatório, As Américas e a civilização, O dilema da América Latina, Os brasileiros - 1. Teoria do Brasil e Os índios e a civilização), nos quais propõe uma teoria explicativa das causas do desenvolvimento desigual dos povos americanos.

Ainda no exílio, escreveu dois romances: Maíra e O mulo, aos quais acrescentou, mais tarde, Utopia selvagem e Migo. Publicou Aos trancos e barrancos, que é um balanço crítico da história brasileira de 1900 a 1980. Publicou também a coletânea de ensaios insólitos Sobre o óbvio e um balanço da sua vida intelectual: Testemunho. Editou, juntamente com Berta G. Ribeiro, a Suma etnológica brasileira. Publicou, pela Biblioteca Ayacucho, em espanhol, e pela Editora Vozes, em português, A fundação do Brasil, um compêndio de textos históricos dos séculos XVI e XVII, comentados por Carlos Moreira e precedidos de longo ensaio analítico sobre os primórdios do Brasil.

Em 1976, retornou ao Brasil, sendo anistiado em 1980. Voltou a dedicar-se à educação e à política. Participando do PDT com Leonel Brizola, foi eleito vice-governador do Estado do Rio de Janeiro (1982). Foi cumulativamente secretário de Estado da Cultura e coordenador do Programa Especial de Educação, com o encargo de implantar 500 CIEPs no Estado do Rio de Janeiro. Criou também a Biblioteca Pública Estadual, a Casa França-Brasil, a Casa Laura Alvim, o Centro Infantil de Cultura de Ipanema e o Sambódromo, em que colocou 200 salas de aula para fazê-lo funcionar também como uma enorme escola primária.

Em 1990, foi eleito senador da República, função que exerceu defendendo vários projetos, entre eles uma lei de trânsito para proteger os pedestres contra a selvageria dos motoristas; uma lei dos transplantes que, invertendo as regras vigentes, torna possível usar os órgãos dos mortos para salvar os vivos; uma lei contra o uso vicioso da cola de sapateiro que envenena e mata milhares de crianças. Publicou, pelo Senado Federal, a revista Carta, onde os principais problemas do Brasil e do mundo são analisados e discutidos. Foi também secretário extraordinário de Projetos Especiais do Estado do Rio de Janeiro. Colaborou com o governador Leonel Brizola na conclusão dos CIEPs e com o Governo Federal nas condução pedagógica dos CIACs. Ocupou-se ainda da revitalização da Floresta da Pedra Branca, da implantação de uma Universidade do Terceiro Milênio no norte fluminense e da criação da Escola Superior da Paz.

Entre suas façanhas maiores conta-se haver contribuído para o tombamento de 98 quilômetros de belíssimas praias e encostas, além de mais de mil casas do Rio antigo. Colaborou na criação do Memorial da América Latina, edificado em São Paulo com projeto do arquiteto Oscar Niemeyer. Gravou um disco na série mexicana "Vozes da América". E mereceu títulos de Doutor Honoris Causa da Sorbonne, da Universidade de Copenhague, da Universidade do Uruguai, da Universidade da Venezuela e da Universidade de Brasília (1995). Prêmio Fábio Prado, de São Paulo (1950).

Entre 1992 e 1994, ocupou-se de completar a rede dos CIEPs; de criar um novo padrão de ensino médio, através dos Ginásios Públicos; e de implantar e consolidar a nova Universidade Estadual do Norte Fluminense, com a ambição de ser uma Universidade do Terceiro Milênio. No Rio de Janeiro, revitalizou a Floresta da Pedra Branca, numa área de 12.000 hectares.

Em 1995, lançou seu mais recente livro, O povo brasileiro, que encerra a coleção de seus Estudos de Antropologia da Civilização, além de uma compilação de seus discursos e ensaios intitulada O Brasil como problema. Lançou, ainda, um livro para adolescentes, Noções das coisas, com ilustrações de Ziraldo, considerado, em 1996, como altamente recomendável pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil.

Em 1996, entregou à Editora Companhia das Letras seus Diários índios, em que reproduziu anotações que fez durante dois anos de convívio e de estudo dos índios Urubu-Kaapor, da Amazônia. Seu primeiro romance, Maíra, recebeu uma edição comemorativa de seus 20 anos, incluindo resenhas e críticas de Antonio Callado, Alfredo Bosi, Antonio Houaiss, Maria Luíza Ramos e de outros especialistas em literatura e antropologia. Ainda nesse ano, recebeu o Prêmio Interamericano de Educação Andrés Bello, concedido pela OEA.

Obras ETNOLOGIA: Culturas e línguas indígenas do Brasil (1957); Arte plumária dos índios Kaapo (1957); A política indigenista brasileira (1962); Os índios e a civilização (1970); Uira sai, à procura de Deus (1974); Configurações histórico-culturais dos povos americanos (1975); Suma etnológica brasileira, em colaboração com Berta G. Ribeiro (1986, 3 vols.). ANTROPOLOGIA DA CIVILIZAÇÃO: O processo civilizatório - Etapas da evolução sócio-cultural (1978); As Américas e a civilização - Processo de formação e causas do desenvolvimento cultural desigual dos povos americanos (1970); O dilema da América Latina - Estruturas do poder e forças insurgentes (1978); Os brasileiros - 1. Teoria do Brasil (1972); Os índios e a civilização - A integração das populações indígenas no Brasil moderno (1970); The Culture - Historical Configurations of the American Peoples (1970; edição brasileira, (1975); O povo brasileiro - A formação e o sentido do Brasil (1995).

ROMANCE: Maíra (1976); O mulo (1981); Utopia selvagem (1982); Migo (1988).

ENSAIOS: Kadiwéu - Ensaios etnológicos sobre o saber, o azar e a beleza (1950); Configurações histórico-culturais dos povos americanos (1975); Sobre o óbvio - Ensaios insólitos (1979); Aos trancos e barrancos - Como o Brasil deu no que deu (1985); América Latina: a pátria grande (1986); Testemunho (1990); A fundação do Brasil - 1500/1700 - em colaboração com Carlos Araújo Moreira Neto (1992); O Brasil como problema (1995); Noções de coisas. Com ilustrações de Ziraldo (1995).

EDUCAÇÃO: Plano orientador da Universidade de Brasília (1962); A Universidade necessária (1969); Propuestas - Acerca da la Renovación (1970); Université des Sciences Humaines d’Alger (1972); La Universidad peruana (1974); UnB - Invenção e descaminho (1978); Nossa escola é uma calamidade (1984); Universidade do terceiro milênio - Plano orientador da Universidade Estadual do Norte Fluminense (1993). Obras suas foram traduzidas para o inglês, o alemão, o espanhol, o francês, o italiano, o hebraico, o húngaro e o tcheco.

Inconfidencia e independencia

Tiradentes foi esse herói nacional fantástico, um homem sábio, engenheiro que fez o serviço de águas do Rio de Janeiro, que fez o planejamento dos portos do Rio... e que conspirou na Europa, em Portugal e conspirou com os norte-americanos também. Era um intelectual que lia, conhecia a constituição americana e queria fazer uma república. Era respeitado pelos magistrados, pelos coronéis militares, pelos poetas, por aquele grupo atípico de Minas que quis criar uma República Brasileira, criar um Brasil e criar brasileiros, dando dignidade. Mas os portuguesas abafaram isto tão bem que continuou soterrada a idéia de liberdade e de autonomia do Brasil...

Trinta anos depois da rebelião dos inconfidentes, o Brasil se tornava império autônomo. Mas levaria quase cem anos para extinguir o trabalho escravo em seu território. Durante trezentos anos o país usou cerca de doze milhões de negros como principal força de trabalho em seu processo de formação. Trazidos do Sudão, da Costa do Marfim, da Nigéria, de Angola e de Moçambique, essa gente marcaria com sua cor e com sua força a fisionomia e a cultura brasileiras. E, ao final do período colonial, era uma das maiores populações do mundo moderno.

"Todos nós, brasileiros, somos carne da carne daqueles pretos e índios supliciados. Como descendentes de escravos e de senhores de escravos seremos sempre marcados pelo exercício da brutalidade sobre aqueles homens, mulheres e crianças. Esta é a mais terrível de nossas heranças. Mas nossa crescente indignação contra esta herança maldita nos dará forças para, amanhã, conter os possessos e criar aqui, neste país, uma sociedade solidária ".
O Povo Brasileiro

segunda-feira, agosto 29, 2005

Cunhados

Onde tinha algum europeu instalado na costa em contato com as naus, e portanto capaz de fornecer mercadoria, cada aldeia, e eram milhares de aldeias, levava uma moça pra casar com ele. Se ele transasse com a moça, então ele se tornava cunhado. Ele passou a ter sogro, sogra, genros... ele passou a ser parente. Então o sabido do português, do europeu, conseguia desse modo pôr milhares de índios a serviço dele, pra derrubar pau-brasil...

A porta de entrada do branco na cultura indígena foi o "cunhadismo". Através desse costume foi possível a formação do povo brasileiro. E da união das índias com os europeus nasceu uma gente mestiça que efetivamente ocupou o Brasil.
No ventre das mulheres indígenas começavam a surgir seres que não eram indígenas, meninas prenhadas pelos homens brancos – e meninos que sabiam que não eram índios... que não eram europeus. O europeu não aceitava como igual. O que era ? Era uma gente "ninguém ", era uma gente vazia. O que significavam eles do ponto de vista étnico ? Eles seriam a matéria com a qual se faria no futuro os brasileiros...
Darcy Ribeiro
Darcy Ribeiro

Mestiços

Nós, brasileiros, somos um povo em ser, impedido de sê-lo. Um povo mestiço na carne e no espírito, já que aqui a mestiçagem jamais foi crime ou pecado. Nela fomos feitos e ainda continuamos nos fazendo. Essa massa de nativos viveu por séculos sem consciência de si... Assim foi até se definir como uma nova identidade étnico-nacional, a de brasileiros..." Darcy Ribeiro, em O Povo Brasileiro

Fusão do povo novo

FUSÃO POVO NOVO - Claudio Angelo
O que você, brasileiro, é? Qual é a sua ascendência?O primeiro a levantar esta dúvida foi provavelmente algum mameluco matuto lá pelos idos anos de mil e quinhentos... Seu pai era, na expressão de Gilberto F. Vasconcellos, “um portuga femeeiro e taradão” e sua mãe, uma bela índia – a cunhã. A descendência resultante deste cruzamento entre as etnias indígena e portuguesa foi apelidada pelos jesuítas de mameluca, palavra de origem árabe (mamaluc), que designava os escravos nascidos nas áreas conquistadas pelos árabes, capturados e educados desde cedo com a finalidade de auxiliar o dominador islâmico a subjugar seus povos (Ribeiro1970:245).O mameluco brasileiro, também chamado de bandeirante ou paulista, filho do ventre da cunhã fecundado pelo esperma lusíada, não era considerado pelos índios como sendo um deles, pois para estes, a ascendência que contava era a paterna. A recepção pelo lado paterno era muito pior, pois os mamelucos eram motivos de deboche entre os reinóis e luso-brasileiros. Caso indagasse a si próprio a sua identidade, o mameluco só encontraria uma resposta: não sendo mais sílvícola, que ele despreza e escraviza, e nem europeu, que o escarnece e oprime, o mameluco não é ninguém (Ribeiro 1995:109). Surge aí a idéia da ninguendade de que fala Darcy. Não se identificando com ninguém, resta-lhe assumir-se como brasileiro, um povo novo.
A ninguendade vai marcar igualmente os filhos resultantes dos intercursos sexuais do senhor de engenho com a escravaria africana.Transportados aos milhões da África para o Brasil, os negros africanos seriam usados como o principal combustível da empresa colonial açucareira, a primeira multinacional a chegar ao Brasil. Roubados de sua liberdade e do fruto de seu trabalho, eram desgastados no sistema de produção destinado a adoçar, por meio do sangue e suor africanos, temperados com muito capital holandês, o paladar europeu.O português que chegou às terras brasileiras, nos ensinou Gilberto Freire, já estava habituado ao convívio com povos etnicamente diferentes,
sendo ele mesmo fruto do caldeamento entre romanos, celtas e muçulmanos. Esta herança étnica/cultural, a aproximação geográfica com os árabes, povos de pele escura, e a já costumeira miscigenação com eles, seriam fatores que facilitariam as puladas de cerca dos senhores de engenhos (e depois dos brancos em geral) na senzala, cujo resultado seria a prole mulata, híbrida entre o branco e o negro, entre o senhor absoluto e o escravo reduzido a nada. A ninguendade também seria o dilema do “mulato”, termo estigmatizante que designava o cruzamento do jumento com a égua, cuja prole exótica, a mula, não é capaz de se reproduzir. Procurar identificar-se apenas com a ascendência branca também foi (e para muitos infelizmente ainda é) uma das marcas dos afro-descendentes, pelo menos até o momento em que começaram a surgir movimentos de conscientização e valorização do negro, que, em alguns destes movimentos, empurrou o pêndulo da auto-imagem para o extremo oposto: identificar-se apenas com a ascendência negra, em detrimento de outras, sobretudo a branca. Amiúde consideram que as palavras “mestiço”, “moreno” ou “pardo” são eufemismos preconceituosos utilizados por aqueles que covardemente não assumem a ascendência africana. Esta concepção da questão negra, ainda que muito bem intencionada, procurando rejeitar a identificação com o branco que o discrimina para agregar-se ao negro com quem pode estabelecer vínculos de solidariedade com base na afro-descendência em comum, não nos parece ser científica e nem a única solução necessária para acabar com este antihumanismo, tão hediondo quanto burro, que é o racismo. De fato, o afro-descendente (“mulato”) é negro na mesma proporção em que é branco e antes de procurar se afirmar como etnia de origem africana diversa e apartada das demais gentes brasileiras, deve buscar sua própria identidade: a brasileira, ou afro-brasileira. Mais uma vez cito o gênio indomável Darcy Ribeiro:“[...] A partir destas bases precárias, o negro urbano veio a ser o que há de mais vigoroso e belo nacultura popular brasileira [...] O negro vem a ser, por isso, apesar de todas as vicissitudes que enfrenta, o componente mais criativo da cultura brasileira e aquele que, junto com os índios, mais singulariza o nosso povo.O enorme contingente negro e mulato é, talvez, o mais brasileiro dos componentes de nosso povo. O é porque, desafricanizado na mó da escravidão, não sendo índio nativo nem branco reinol, só podia encontrar sua identidade como brasileiro.” (Ribeiro 1995:222) Pois bem, após esta singela abordagem da origem do mameluco e do mulato e considerando ainda que estes passaram a se miscigenar uns com os outros e depois com chineses, italianos, alemães, japoneses, koreanos etc., remetamo-nos à indagação inicial. O que você, brasileiro, é?Bem, a resposta está contida na própria pergunta. Não somos índios, nem europeus, nem africanos, nem imigrantes asiáticos. Somos sim, brasileiros. Um povo novo, surgido da fusão destas diversas matrizes étnicas diferentes que, colidindo entre si, misturando-se e desfazendo-se, criaram uma das maiores tramas da humanidade, num processo – enfatize-se – de fusão, quase sempre trágico e doloroso, mas às vezes alegre, que, por fim, ensejou o aparecimento de uma nova nação sobre a face da terra, um povo – insisto e repito – novo: o brasileiro.